LUIZA NETO JORGE
ou Apresentação de uma espécie de corpo inenarrável


Jorge Fernandes Da Silveira

Poeta, tradutora (Lisboa, 1939-1989). A escrita revolucionária dos poemas de Luiza Neto Jorge volta a exigir uma mudança radical no hábito da leitura de poesia. Ler o seu primeiro livro - A Noite Vertebrada, 1960 - implica perceber como a expressão poética, a partir de uma interpretação pessoal da realidade, transforma os significados socialmente fixados em significantes produtores de outros sentidos. O lado referencial, institucionalizado portanto, da Terra Imóvel (1964) é visto através da literatura, pois, à semelhança dos poetas da sua geração, ao falar do tempo e do espaço que historicizam o seu poema, cita, de acordo com os princípios da intertextualidade, os autores que lê. Em Quarta Dimensão (1961), a sua participação em Poesia 61, o transporte entre os textos e a relação inter-estrófica - por meio de uma semântica em aberto, juntando poemas à primeira vista independentes - já caracterizam o estilo de Luiza Neto Jorge como, para usar um título seu, um "ciclópico acto": um modo de apropriação de diferentes e plurívocas linguagens, reinterpretadas pelo avesso, no choque casual de contradicções provocatoriamente fundidas. Esta poética, de quem ainda se distingue pela criação de textos para o teatro e o cinema, tem algo de uma encenação dramática. Publicado em 1969, Dezanove Recantos é a síntese extraordinária duma poesia de acontecimentos, de situações tensas entre o sujeito e as suas circunstâncias. O livro está dividido em 19 recantos e não em 20, como seria de esperar em texto que se nomeia, explicitamente, recanto camoniano, duplicação, pela leitura-escrita, dos 10 cantos d'Os Lusíadas. Em obra de vocação surrealizante, a multiplicação pela falta, pelo um em menos (10 + 10 = 19), é proposição evidente da reivindicação de uma nova narração dos acontecimentos. A matriz épica do livro - o fato de a escrita se dizer leitura de uma epopéia clássica - é, sem paradoxos, sinal da mais paradigmática modernidade na obra de Luiza. Semelhantes práticas de conhecimento em confluência mais sobressaem se associadas a uma outra de igual ou maior força: a hipótese de um modo feminino de escrever a história portuguesa, arbitrariamente transformada em história de homens ilustres, dos "barões assinalados". Neste aspecto, por meio de um surpreendente e desassombrado erotismo, a poesia de Luiza não encontra paralelo na literatura portuguesa desde sempre. Do "peito ilustre lusitano" ao seu avesso, seja ele o peito assassinado de Inês, ou o seu nome próprio assinado à maneira das bibliografias - "SO-NETO JORGE, Luiza"-, há uma prática de escrita intimamente, sexualmente na verdade, ligada às partes do corpo que escreve. Um corpo assim, eros frenético, assim movido e assinalado às avessas, é um corpo em estado de alarme. A poesia da autora de "Exame" é o alerta desse corpo alarmado e alarmante. Já que escreve poemas em que passa o sexo a ser eixo, ela tem muito a falar sobre as cópulas semânticas entre os gêneros masculino, feminino e literário. Numa zona, antes ambivalente agora pluralizada, pois alargada nos seus órgãos extremos, esta poesia requer para si uma área de transição, que é, no fundo, a expressão mais feliz que ela encontra para falar do prazer do sexo do e com o outro. É nessa zona a um só tempo fatal e vital, local de encontro do sujeito consigo e com os discursos que interpretam o mundo, que a poesia de Luiza Neto Jorge inscreve uma revolução nos instrumentos de estilo e composição, ditando à sua maneira a moda que lhe é contemporânea: ler o escrito e escrever o lido, sim, pois estes são Os Sítios Sitiados (1973); mas não como práticas colossais de isolamento em que a exclusão é o estigma permanente da indiferença pelo diferente. Em 1966, é publicado O Seu a Seu Tempo. Tempo de uma maravilhosa aventura poética que ao longo dos anos 60 escreveu os seus livros mais notáveis. No ano de1989, vem A Lume, o título que, literal e postumamente, esclarece um longo silêncio, às vezes interrompido por intervenções e colaborações nos mais diversos meios de comunicação. Igualmente póstumo tem de ser Poesia 1960-1989 (1993), embora nele estejam reunidos e vivos para sempre versos perfeitos, harmoniosamente irregulares, com uma musicalidade intensa, cortados por elipses frasais e semânticas, por uma exultante contundência, por um amor ardente, sarcástica e ferozmente doméstico, à portuguesa.

Bibliografia

(ensaios em livros): Jorge Fernandes da Silveira, Portugal Maio de Poesia 61, Lisboa, 1986; Gastão Cruz, A Poesia Portuguesa Hoje, Lisboa, 1973; Melo e Castro, O Próprio Poético, São Paulo, 1973; Joaquim Manuel Magalhães, Os Dois Crepúsculos, Lisboa, 1981.