Cartas a Sandra de Vergílio Ferreira:
a encenação do diálogo epistolar

Isabel Cristina Rodrigues
Universidade de Aveiro

A utilização da carta como estratégia romanesca em Vergílio Ferreira poderia levar-nos, se a ocasião o permitisse, a problematizar a função deste género de discurso num quadro mais amplo - o da literatura portuguesa contemporânea, uma vez que uma parte significativa da literatura dos nossos dias tende a aproximar géneros consabidamente literários (refiro-me aqui sobretudo a um deles - o romance) de géneros tradicionalmente não literários ou, pelo menos, de géneros cuja inserção no campo literário é frequentemente ambígua e sujeita a oscilações de vária índole - conceptuais, terminológicas ou outras.

Em Vergílio Ferreira, o género epistolar percorre vários textos e textos de índole muito diversa, como demonstrou já Rosa Goulart num texto dedicado precisamente a esta questão1, mas o interessante é que neste autor a atracção pelo domínio da epistolografia coincide frequentemente com o seu universo ficcional: este tipo de registo epistolar "ficcionalizado" ocupa um lugar preponderante no conjunto da obra do autor, situando-se no próprio núcleo da intriga romanesca, como em Cartas a Sandra, ou traçando para esta mesma intriga uma espécie de moldura epistolar que enforma e contextualiza a história que o narrador vai contando, como ocorre no romance Em nome da terra. Outros casos há em que na ficção de Vergílio Ferreira avultam mensagens epistolares com uma posição absolutamente marginal em relação ao essencial da intriga. Neste último caso, a inclusão num romance de um texto de filiação epistolar não é em nenhum sentido problemática porque, constituindo o registo epistolar claramente uma excepção no contexto romanesco que o envolve, é completamente absorvido por esse tecido ficcional que o acolhe2.

Como quer que seja, e independentemente dos problemas que a sua utilização pelo romance possa suscitar, o texto epistolar é sempre em Vergílio Ferreira um modo de comunicação assumidamente dialogal que não anula inteiramente a expressividade comunicativa do monólogo. Como o próprio Vergílio Ferreira afirmou, numa obra também ela sujeita aos protocolos enunciativos da narrativa epistolar, Carta ao Futuro, «a epistolografia é a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo.»3

De facto, se, por um lado, o impulso epistolar na narrativa de Vergílio Ferreira se caracteriza pela insistente procura de um interlocutor para o sujeito, por outro, o próprio texto epistolar parece comprazer-se na afirmação da ausência de um destinatário efectivo, ou melhor, na afirmação de uma impossibilidade - a de que esse destinatário venha alguma vez a converter-se em receptor.

Pelo menos as mais importantes mensagens epistolares que integram a obra de Vergílio Ferreira têm, todas elas, destinatários definidos, intensamente nomeados no corpo dos respectivos textos, mas, por uma razão ou outra, estes destinatários vêem-se sempre impossibilitados de receber as cartas que lhes são dirigidas.

Em Para Sempre, a carta de amor que Paulo escreve a Sandra não chega sequer a percorrer todas as fases do circuito comunicativo, como bem notou ainda Rosa Goulart4, pois Paulo, já depois de a ter escrito, não chega a entregá-la à personagem, adiando assim uma mensagem a que só em Cartas a Sandra pôde dar realmente voz:

De uma vez não pude mais, escrevi-te uma carta enorme em que me sangrei todo. Disse «vou dizer-te tudo».
(...) Assim. Escrevi-lhe uma carta do tamanho da minha paixão, meti-a ao bolso, saí. Mas chegado ao marco do correio. Parei, meti a mão no bolso, fui dar mais uma volta de reflexão. Saber a palavra certa, o gesto certo, a atitude justa. Mas o que é que está certo para ti? Voltei ao marco do correio, meti a mão no bolso. Mas quando estava já a metê-la na ranhura. Fui dar mais uma volta5.

A carta que, em Para Sempre, o adolescente Paulo não foi capaz de entregar a Sandra acabou por multiplicar-se em mensagens várias, finalmente escritas por um narrador que, tendo- se furtado outrora ao despudor de uma carta, anos mais tarde, já instalado na velhice e na solidão dos afectos, comovidamente se dirige à sua interlocutora de sempre - Sandra. Neste sentido, e embora Para Sempre não possua uma estrutura epistolar definida, o narrador Paulo parece querer revelar a Sandra o que antes a personagem lhe ocultou, constituindo o discurso do narrador em Para Sempre uma espécie de resposta à incapacidade do protagonista para escrever cartas de amor.

Por outro lado, as circunstâncias em que é redigida a longa carta de João a Mónica no romance Em nome da Terra (e que muito aproximam este romance de Para Sempre) anunciam já, de certo modo, as dez cartas a Sandra que Paulo escreve muito depois de Para Sempre e que Vergílio Ferreira publica exactamente com esse nome, provavelmente o único possível, de tão adiado que foi - Cartas a Sandra. O gesto epistolar que, no romance Em nome da terra, facilitava a presentificação lírico-emotiva de Mónica, aparece revestido, no último romance de Vergílio Ferreira, de um impulso comunicativo de carácter muito mais explícito (assinalando a marca do género logo no título), mas igualmente virtual: em ambos os textos, os respectivos interlocutores (Mónica e Sandra) são claramente concebidos como uma ausência, já que, no momento de redacção das mensagens que lhes são dirigidas, habitam já o espaço de todos os silêncios - a morte.

Em função disto, o texto epistolar acaba por descobrir alguns mecanismos de compensação dessa ausência de interlocutor, encenando um diálogo que abre caminho à expressão de um lirismo claramente monologal. Em Cartas a Sandra, a falta de um destinatário actuante é um nítido factor de intensificação poética, investindo o autor das cartas, nos momentos em que a personagem é textualmente nomeada, uma emoção lírica que, em Vergílio Ferreira, não necessitou nunca de consubstanciar-se num tu verdadeiramente operante. A intensa nomeação do destinatário que o texto epistolar permite realizar cumpre plenamente a função da carta na narrativa de Vergílio Ferreira e muito especialmente em Cartas a Sandra - presentificar a personagem a quem a mensagem se destina e restituir à relação amorosa interrompida pela morte o diálogo ainda possível. Por isso escreve Paulo em Cartas a Sandra:

Voltarei a escrever-te? Para voltares a existir no que escrevo de ti. Demora-te hoje ao menos ainda um momento. Para olharmos a neve na montanha, os campos desertos, ouvirmos em nós o silêncio do mundo. (...) Há o meu desejo de te fixar na palavra escrita que te diz, para ficares aí com o milagre que puder.

E repete ainda num outro momento:
(...) Querida Sandra. De vez em quando volto a perguntar-te porque te escrevo. Sei naturalmente que é para estar contigo. (...) De todo o modo, como foi bom ter estado contigo nesta forma de não estares6.

A verbalização das mensagens de amor de Paulo à mulher morta e, portanto, convenientemente ausente, faz da carta em Vergílio Ferreira, e em particular da carta de amor, a expressão metafórica da incomunicabilidade amorosa, sugerindo que há mensagens que só podem ser proferidas quando não podem ser ouvidas ou, mais exactamente, que há cartas que só podem ser escritas quando já não podem ser lidas. À semelhança do narrador-personagem João de Em nome da terra, que entendia ser importuna a presença da sua interlocutora, Mónica, quando se tratava de verbalizar as palavras difíceis7, diz Paulo em Cartas a Sandra:

«É bom poder dizer-te quanto te lembro. E te quero. É bom não poderes dizer-me que tolice. Ou fitares-me com o teu olhar severo e vivacíssimo. (...) É bom poder dizer-te tudo e tu agora não poderes dizer nada8

Assim, acaba por se tornar claro que este diálogo monologante de aparência profundamente desamparada, que os narradores destes romances procuram estabelecer com as suas duas interlocutoras, é apenas um artifício retórico que facilita a expressão da emotividade de João e Paulo e que certamente não teria sido verbalizado se Mónica e Sandra não fossem exactamente o que são: destinatárias virtuais; este desamparo que caracteriza o texto epistolar em Vergílio Ferreira é, então,como está bem de ver, condição essencial para que esse mesmo texto se materialize. Talvez também por este motivo o adolescente que Paulo foi em Para Sempre tenha adiado por tanto tempo aquela mensagem que nunca chegou a entregar ao correio, mas que ainda em Para Sempre prometeu escrever um dia, provavelmente quando o tempo de Paulo e Sandra fosse já outro, de insuprível ausência:

Fica-te aí assim, talvez te procure ainda, talvez te escreva uma carta de amor. Daqui donde estou, está uma tarde quente. De amor9.

Esta carta de amor, prometida a Sandra desde Para Sempre e tendo já encontrado no posterior Em mome da terra uma primeira oportunidade de textualização, ganha definitivamente corpo e forma no derradeiro Cartas a Sandra; assinala-se com este texto o regresso explícito de Vergílio Ferreira a um projecto narrativo aparentemente concluído treze anos antes, mas de cuja atmosfera amorosa o escritor parece não ter conseguido libertar-se. Talvez também porque Cartas a Sandra anunciasse a Vergílio Ferreira uma qualquer ideia de fim ou conclusão, o autor terá decidido assumir sem receios e sem máscaras a sua obsessão por Sandra, acenando finalmente o seu nome por sobre todos os outros que a personagem tomou ao longo da obra do escritor - Mónica (Em nome da terra), Oriana (Até ao fim), ou ainda Bárbara (Na tua face). É o próprio autor que o afirma num dos últimos volumes da segunda série de Conta-Corrente: «Dispersei Sandra por outras figuras femininas, era agora a altura de a esgotar por fim e rasurá-la da imaginação»10.

Assim, Cartas a Sandra continua e simultaneamente conclui (porque morre com estas cartas o narrador de Para Sempre e o próprio Vergílio Ferreira) o texto de encantamento que Para Sempre sempre foi para o seu autor. Porém, o título desta última obra de Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra, poderia suscitar na realidade alguns problemas de classificação genológica, ao insinuar, de modo mais veemente do que qualquer outro título de Vergílio Ferreira, supostas afinidades entre o romance em causa e o género epistolar11. De qualquer modo, o que efectivamente o título deste último texto permite sublinhar é que a forma de Paulo se dirigir a Sandra é, por natureza, a palavra escrita (o que, de resto, já ocorria em Para Sempre) e, por isso, o referido título parece não concorrer, pelo menos de forma directa, para a inscrição do texto num modelo arquitextual particular. Se a mensagem amorosa de Paulo adopta no recente Cartas a Sandra a forma externa da carta, talvez este facto fique a dever-se a determinadas circunstâncias decorrentes do funcionamento semiodiscursivo da narrativa epistolar ou ainda aos próprios protocolos narrativos da carta - a intensa nomeação do destinatário ou a recorrente utilização de vocativos, por exemplo; estes preceitos facilitam a encenação de um quase convívio entre o redactor da mensagem epistolar e a pessoa a quem ela se destina, o que permite a Paulo presentificar emotivamente Sandra e libertá-la do seu estatuto de destinatária ausente12. Aliás, as dez cartas incluídas neste derradeiro romance não diferem muito de alguns fragmentos do Para Sempre em que Paulo fala de Sandra ou a ela se dirige de forma mais explícita, interpelando a personagem e nomeando-a no seu discurso, numa tentativa muito clara de restituir à sua relação com Sandra o sentido comunicativo que o tempo e a morte inviabilizaram. Escreve Paulo em Para Sempre:

Porque estou tão saudoso de ti. Ou não de ti, talvez, mas de um tempo em que tudo em ti se centralizava. Ou não do tempo mas de quanto foi a minha vida e eu procuro numa palavra que viesse desde então até mim e não encontro.(...) Sandra. És o que no fim de contas me lembra só. Como se toda a vida se reunisse nela e nela se iluminasse e tivesse sentido.;13

Depois, em Cartas a Sandra, conclui:
Criei-te na legenda e no fantástico que o dia a dia ia arrefecendo na naturalidade de sermos. Mas é aí que tu perduras depois da tua morte e é aí que me apareces depois que tudo passou14.

Corroborando a semelhança que os excertos supra citados evidenciam, as dez cartas que compõem Cartas a Sandra não apresentam algumas das marcas contratuais da carta, como a data, o lugar de escrita ou mesmo o vocativo inicial que assinala o incipit do texto epistolar. Tais ausências parecem transformá-las quase em capítulos de um romance já escrito (Para Sempre), mas que o autor (Paulo ou Vergílio Ferreira), em virtude da emotividade que o mesmo texto transporta, não consegue abandonar ou considerar concluído; a terceira carta não apresenta sequer a mesma fórmula de abertura das outras nove cartas (Querida Sandra ou simplesmente Sandra), começando directamente com uma interrogação: «Porquê? Para quê? Por nada. Para nada. Mas não perguntes. Passam-se dias que te chamo e não vens. Ou vens mas não és tu. É uma imagem fria de ti como a de tanta coisa que recordo»15.

Por outro lado, mesmo aqueles fragmentos que, em Cartas a Sandra, reproduzem as modalidades convencionais de encerramento do texto epistolar, obedecem a um impulso emotivo cujo objectivo primordial não é a observância de quaisquer parâmetros de género, mas tão-só a verbalização de uma vontade: a de que Sandra regresse no dia seguinte e numa nova carta, para voltarem ambos, Paulo e Sandra, ao diálogo amoroso que a necessidade de terminar a presente carta vem silenciar: «Deolinda deve estar a vir. E eu digo-te boa tarde. Boa noite. Ver-te-ei amanhã?»16.

Deste modo, estas dez cartas poderiam ter sido incluídas no próprio Para Sempre, pois, para além dos motivos aduzidos, concluem a sua aventura narrativa, funcionando como epílogo para a história de Paulo17, e recobrem praticamente o mesmo tempo diegético de Para Sempre, convertendo-se, assim, as referidas cartas em imagens redundantes de um universo que havia já sido objecto de uma narração anterior. A própria Xana, na apresentação que faz das cartas do pai, não deixa de se referir ao carácter eminentemente redundante de todo o diálogo amoroso, responsável também ele por uma notória restrição vocabular de que Cartas a Sandra é, aliás, um excelente exemplo: «Tenho a impressão de mais uma vez verificar (comenta Xana) como é restrito o vocabulário amoroso e tanto mais restrito quanto mais é intensa a paixão. Mas isso deve acontecer com tudo o que nos afecta fortemente a sensibilidade.»18

O segmento temporal que escapa a qualquer sentido de redundância é aquele que corresponde à morte de Paulo e às circunstâncias que rodearam a publicação das cartas de Paulo a Sandra e cuja narração é efectuada por Xana, guardiã das cartas do pai e do seu espólio literário. Impondo-se a necessidade de escrever um prefácio que acompanhe as mensagens que Paulo dirige à mulher morta, a fixação da sua autoria oscila entre uma personagem ausente no Para Sempre (Rodrigo Xavier, colega de juventude de Paulo e que, de facto, desencadeia o processo de publicação das cartas) e Xana, acabando por recair nesta última, pois esta personagem tem, em relação a Rodrigo Xavier, a vantagem de legitimar a íntima ligação entre Para Sempre e Cartas a Sandra:

Rodrigo Xavier acabou a leitura e disse-me - isto é obrigatoriamente de se publicar e mantenho mais forte a minha proposta de eu escrever o prefácio. Eu não pensara muito nessa hipótese de publicação, e direi porquê. Mas a publicarem-se, serei eu naturalmente a escrever uma nota de introdução - disse eu ainda com vigor ao juiz. É pena, respondeu-me ele, teria talvez observações novas a introduzir19.

Marcando o vínculo ficcional entre Para Sempre e Cartas a Sandra, a "Apresentação" de Xana torna-se na simulação de um prefácio, visto que, em rigor, não prefacia Cartas a Sandra de Vergílio Ferreira, mas apenas as cartas que o narrador de Para Sempre escreveu à mulher, situando-se, portanto, não nas margens do texto, que é normalmente o lugar dos prefácios, mas dentro dos limites da ficção. Nesta perspectiva, a menção paratextual utilizada por Vergílio Ferreira no início deste seu romance não pretende conferir verosimilhança às cartas (pelo menos não no sentido aristotélico), mas sim atestar o seu carácter ficcional, que obviamente também atinge o prefácio em que essa mesma ficcionalidade se explicita, associando-as indelevelmente ao suporte narrativo de Para Sempre.

Como quer que seja, a verdade é que a "Apresentação" assinada por Xana exerce a função de um verdadeiro prefácio em relação ao texto que acompanha; considerando que os paratextos, como notou Genette, podem ser definidos como «tipos de sinais acessórios, autógrafos ou alógrafos, que garantem ao texto um envolvimento (variável) e por vezes um comentário»20, também a "Apresentação" inserida em Cartas a Sandra contextualiza e comenta o texto que se lhe segue; essa "Apresentação" não só revela o modo como a sua autora teve acesso ao texto que prefacia, como também encerra alguns juízos de valor sobre o conteúdo das cartas que se lhe sucedem.

Para além disto, este prefácio funciona igualmente como justificação do comportamento de Xana descrito em Para Sempre, já que só agora é conferida à personagem a oportunidade de exprimir, em relação ao universo diegético desse romance, determinados pontos de vista que a omnipresente voz de Paulo tornara inaudíveis:

Lembro-me assim bem de como sofri e sofro ainda ao lembrar a dureza do meu procedimento estouvado quando saí de casa sem ter sequer uma palavra para o meu pai. Sei como sofro ainda ao reler o episódio do solitário jantar dos meus pais após a minha partida no dia dos meus anos, ao atingir a maioridade21.

Desta singular "Apresentação" fica ainda a nota (de Xana, a prefaciadora, e de Vergílio Ferreira, o autor) de que as referidas cartas, apresentadas e publicadas depois da morte do seu autor, correspondem ao projecto mutilado de uma narrativa mais vasta; este sentido de mutilação não é certamente alheio ao facto de a última carta se encontrar inacabada em virtude do súbito desaparecimento de Paulo. De qualquer modo, apesar do seu estado de visível incompletude, ou talvez mesmo por isso, ela dá «de algum modo um todo ao seu conjunto»22, repetindo as palavras de Xana na sua "Apresentação", tal como Cartas a Sandra, marcando o final do diálogo do seu autor com Sandra, parece conferir um sentido global à obra romanesca de Vergílio Ferreira. O longo e duradouro diálogo com Sandra que, aberta ou dissimuladamente, Vergílio Ferreira manteve ao longo da sua vida literária transforma Cartas a Sandra na carta do adeus e no texto da despedida, como se, consciente do derradeiro sopro de encantamento que ainda lhe era permitido, nada mais restasse ao autor que a evocação desse espaço de evidência e milagre que as palavras nunca puderam verdadeiramente retratar:

Sandra. Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. E todavia é nessa eternidade que a tua memória me perturba e a imagem terna do teu encantamento. (...) A tarde apaga-se lenta, a Deolinda deve estar a vir aquecer-me o jantar. E eu suspendo a obsessão de te dizer todo o maravilhoso de ti, antes de te imaginar a breve ruga na face e ouvir-te dizer que tolice. Não digas. Se te sentasses aqui à braseira. E se te demorasses comigo um pouco e olhássemos em silêncio a grande noita que desce. Em silêncio. Não te dizer mais nada. E tomar-te apenas a tua mão franzina na minha. E sorrires23.

Notas

1. Rosa Goulart, "Vergílio Ferreira - o diálogo epistolar", Vergílio Ferreira - cinquenta anos de vida literária. Actas do Colóquio Interdisciplinar (Org. e coord. Fernanda Irene Fonseca), Porto, Fundação Engº António de Almeida, 1995, p.293-304.
2. É o que acontece com a carta que António Borralho escreve à mãe, no romance Manhã Submersa. Cf. Rosa Goulart, ibid., p.301- 302.
3. Vergílio Ferreira, Carta ao futuro, Lisboa, Portugália, 1966, 2ª ed. p.9.
4. Cfr. art. cit., p.300-301.
5. Vergílio Ferreira, Para Sempre, Lisboa, Bertrand, 1983, p.138-139.
6. Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra, Lisboa, Bertrand, 1996, p. 42,116,133,117.
7. Cfr. Vergílio Ferreira, Em nome da terra, Lisboa, Bertrand, 1990, p.69.
8. Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra, ed. cit., p.39.
9. Vergílio Ferreira, Para Sempre, ed. cit., p.61.
10. Vergílio Ferreira, Conta-Corrente. Nova Série II, Lisboa, Bertrand, 1993, p.377.
11. É claro que também o título de Carta ao Futuro aponta para a mesma matriz genológica, o género epistolar, mas o facto de estarmos com este texto em presença de um suposto ensaio leva-nos a evitar estabelecer comparações que podiam afigurar-se pouco pertinentes.
12. Cf. Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra, ed. cit., p.41-42: «Assim eu te escrevo para te demorares um pouco. Talvez voltes a dizer-mo. E eu a ti. // Voltarei a escrever-te? Para voltares a existir no que escrevo de ti. Demora-te hoje ao menos ainda um momento. Para olharmos a neve na montanha, os campos desertos, ouvirmos em nós o silêncio do mundo». Também no romance Em nome da terra se torna evidente para João que escrever a Mónica é uma forma de voltar (ou continuar) a amá-la: «Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever.» (ed. cit., p.9)
13. Vergílio Ferreira, Para Sempre, ed. cit., p. 223.
14. Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra, ed. cit., p.65.
15. Id., Ibid., p.61.
16. Id., Ibid., p.93.
17. Em rigor, o epílogo da história vivida por Paulo (as circunstâncias da sua morte) não nos é dado pelas cartas, mas sim pelo prefácio de Xana. Cfr. Cartas a Sandra, ed. cit., p.11-12.
18. Id., Ibid., p.27.
19. Id., Ibid., p.13.
20. Gérard Genette, Palimpsestes. La Littérature au second degré, Paris, Seuil, 1982, p.10.
21. Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra, ed. cit., p.16.
22. Id., Ibid., p.15.
23. Id., Ibid., p.35;42.