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ISSN 0874-5102

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Número 8

Faz parte do pensamento crítico situar num diálogo contínuo entre suas linhas de construção e a situação sociocultural imbricada em seu processo de modelização. Não apenas interessa o objeto acabado, mas também o objeto em processo. Assim é que se propõe ao crítico genético um debate silencioso e sem tréguas na consideração do primeiro rascunho de um escritor, das retomadas nele efectuadas pelo autor, de que redundam alterações de maior ou menor porte e de vária ordem, ou mesmo refacções radicais, ou amplos desdobramentos. Essa matéria que se abre à indagação, situa-se, assim, como uma forma de encenação crítica, que se alimenta do confronto entre possibilidades, entre alternativas textuais, diante das quais muita vez o editor tem de tomar dificeis decições. Também o trabalho de cotejo de variantes verificáveis na transmissão de textos, exige a tomada de decições editoriais, de acordo com diferentes metodologias. Num caso e no outro, cabem a imagem de espetáculo crítico e a concepção de texto em processo para a caracterização do trabalho do filólogo.
Na vida, como na literatura, captar e entender os rastros dos inúmeros fluxos discursivos que marcam a génese de um texto e seus aparatos de mediação pode implicar a busca de gestos que marcaram determinadas configurações psicosociais, nos desenhos construídos pelos discursos da historia. E essa uma das formas postas em circulação no campo intelectual, de se buscar uma compreensão mais densa da dinámica dos fatos da vida e de suas simbolizações textuais. De forma correlata, é assim que pode ser vista a atividade dos filólogos quando buscam marcas dos processos criativos que embalaram os escritores, problematizando situações psicosociais e histórico-culturais.
Neste volume de Veredas, revista da Associação Internacional de Lusitanistas, organizado por Luiz Fagundes Duarte, da Universidade Nova de Lisboa, temos uma criteriosa e fecunda reunião de ensaios que traz importantes subsídios para a crítica textual, em sentido amplo. Como aponta o competente organizador do volume -pesquisador com obra de referencia nessa área do conhecimento-, este número reúne colaborações de vinte autores, de formações e metodologias diversas, que são "testemunho do trabalho que fazem com manuscritos autógrafos ou com tradições complexas de transmissão de textos fundamentáis de nossa cultura". Desde já, é de enfatizar, ensaios que são testemunhos -à consideração dos filólogos- da diversidade, que permite uma visão ampla e multifacetada da crítica textual que se faz em língua portuguesa.
Este trabalho entre textos, variantes e notas, é também uma forma de os povos de língua portuguesa se conhecerem, no que tém em comum e de diferente. Encontram-se aí marcas das circulações culturais estabelecidas entre esses países e também as que os associam a outras tradições.
A consciência crítica do filólogo, sob esse aspecto, mostra­se como um campo de fios que se articulara em suas variedades à maneira de um hipertexto, caso se queira estabelecer relações com a linguagem da informática. Cada atualização textual seria como nós de uma malha instável, que se amarram conjunturalmente nos filtros dessa consciência
Configura-se, assim, na multiplicidade das interações entre a consciência do editor e os manuscritos ou éditos que examina, um espetáculo a animar textos, processos de criação, sujeito criador e possíveis mediadores. Nessa dinámica, as conjunções, embora movidas por um ideal de fixação, permanecem no reino do provisório, pois que, na prática, lembrando-nos de um conhecido poeta brasileiro, de dicção (também) camoniana, poder-se-ia dizer que essas fi­xações, no espetáculo crítico montado, só serão infinitas enquanto durarem.

Conteúdos:

LUIS FAGUNDES DUARTE
Tempo de perguntar

Teoría e Crítica da Crítica:

ALMUTH GRESILLON
La critique génétique: origines, méthodes, théories, espaces, frontières

GIUSEPPE TAVANI
O texto medieval e as suas "misérias e desventuras"

VANDA ANASTÁCIO
Quando o papel interfere com a escrita: reflexões sobre alguns autógrafos do Segundo Marquês de Alorna

JOÃO DIONÍSIO
Criticus fit

Crítica e Linguística:

HEITOR MEGALE, SÍLVIO DE ALMEIDA, TOLEDO NETO, PHABLO ROBERTO MARCHIS FACHIN, RENATA FERREIRA COSTA, VANESSA MARTINS DO MONTE
Crítica textual, análise grafemática e pesquisa lingüística

LUÍS PRISTA
Um manuscrito de João Felix Pereira: a Carta sobre a Reforma Ortográfica de Barbosa Leão

Critica e edição / Autores:

MELÂNIA SILVA DE AGUIAR
Editar Cláudio Manuel da Costa e Tomás António Gonzaga: um diálogo possível

CARLOS REIS
O cânone da literatura queirosiana

WALNICE NOGUEIRA GALVÃO
Editar Euclides da Cunha

PAULO FRANCHETTI
Editar Camilo Pessanha. Questões de método e de princípios

JERÓNIMO PIZARRO
Pessoa existe?

TELÈ ANCONA LOPEZ
Leituras e criação: fragmentos de um diálogo de Mário de Andrade

ISABEL CADETE NOVAIS
José Régio: enveredando pelos trilhos da sua criação

NEUME CAVALCANTE
Cadernetas de viagem de João Guimarães Rosa: fonte de criação literária

HÉLDER GODINHO, ANA ISABEL TURÍBIO
O espólio de Vergílio Ferreira

GIULIA LANCIANI
Il processo genetico nella formazione del testo in Carlos de Oliveira

Crítica e edição / Traduções:

SÍLVIO DE ALMEIDA TOLEDO NETO
O Livro de José de Arimatéia: breve comentário sobre questões atuais

MAMEDE MUSTAFA JAROUCHE
O Livro das Mil e uma Noites. Dilemas e opções de uma tradução

Crítica e arquivística:

ANTÓNIO BRAZ DE OLIVEIRA
Arquivística literária: notas de memória e perspectiva

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