Machado de Assis à "Roda da Vida":
Das Memorias Postumas ao Memorial de Aires

("Esse texto também aparece na Revista Veredas N° 3")

Lucette Petit
Universidade da Sorbonne - Paris IV

Durante quase 30 anos, isto é entre a data de aparição d'As Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e a d'O Memorial de Aires (1908), Machado de Assis parece ter experimentado o mais variado tipo de criação romanesca - dando assim a impressão de ter instaurado avant la lettre a sua própria ère du soupçon. Em vez da certeza de recusa dos géneros e das escolas, ele substituiria a "dúvida", cuja testemunha essencial é o seu trabalho literário.

Aos perigos duma escritura fácil, ele opôs o leque duma escrita de todos os perigos: perigo duma escrita elitista, unicamente decifrável pela inteligentsia do momento; perigo de fazer perder, inclusive aos mais lúcidos dos seus leitores, o fio do seu discurso (lembremos a este propósito a recepção muito mais imediata da obra de Eça no Brasil, à qual aludiu o professor A. Cândido na palestra de abertura do presente Congresso); perigo, por fim, de ver se diluir a possível mensagem ideológica da sua obra de maturidade.

Entre outras caberiam pois duas perguntas: - O que foi que levou Machado a escolher uma via cheia de obstáculos, enquanto a sua reputação estava na altura bem assentada? - Como resolveu, ou tentou resolver, a problemática recorrente duma criação eminentemente pessoal?

Entre o discurso obsoleto e muitas vezes mergulhado na auxese do romantismo e o nauseabundo, ao seu gosto, realismo incipiente, entre os dogmas de escola e o que vira a ser - talvez já o pressentisse - o desencadeamento de todas as liberdades, ele parece repensar o seu século. A gloria, ele o sabe, espera o que há-de ocupar o lugar ainda vazio da inovação. E pode ser que seja a procura da gloria nas letras que imprima o novo rumo da sua escrita a partir das Memórias Póstumas e que o leve portanto a enfrentar os famosos "perigos" a que nos referimos. Emblemáticos desta procura incansável da glória são os seus heróis, todos alias escritores: Brás Cubas, as suas memórias; Quincas Borba, a sua filosofia de Humanitas; Dom Casmurro, o seu livro do mesmo titulo; o Conselheiro Aires, Esaú e Jacó e O Memorial.. Emblemáticos também desta procura, que quer de antemão se justificar, são os peritextos que, de certa maneira, introduzem as obras já citadas. Lembremos o prólogo da terceira edição de B. Cubas:

A primeira edição destas Memórias Póstumas de Brás Cubas foi feita aos pedaços na Revista Brasileira, pelos anos de 1880. Postas mais tarde em livro, corrigi o texto em vários lugares. Agora que tive de o rever para a terceira edição, emendei ainda alguma coisa e suprimi duas ou três dúzias de linhas. Assim sai novamente à luz esta obra que alguma benevolência parece ter encontrado no publico.1

Prólogo revelador na medida em que designa nitidamente o caminho da gloria: a passagem "dos pedaços", distribuídos, dilacerados, em revista, à entrada, já triunfal, nas paginas definitivas do Livro. O Livro, desta vez, vai poder desdobrar nas suas paginas - de certa maneira "explicar", isto é fazer sair das suas pregas, das suas dobras - uma matéria mais maleável, mais dúctil, quase que fluente, espécie de fonte cuja agua vai seguindo os meandros dum pensamento sem se preocupar com a ordem estrita dos antigos folhetins. Primeira liberdade que abre a porta a todo o manancial até ai retido em efémeras paginas de revista. Liberdade que livra o texto, escrito com "intuito único" do seu autor, da contaminação de textos parasitas de outros autores. Liberdade, por fim, de se exemplificar, num tipo de escrita decididamente diferente capaz de abrir, fora da via comum, as portas da gloria.

Como então, eis a segunda pergunta, resolver o problema da criação pessoal, singular, reconhecível entre mil outras, duma criação diferente que permita de imediato identificar o seu criador? Apresentara outra vez o prólogo da terceira edição das Memórias Póstumas uma possível resposta: o desdobramento do autor. A pergunta de Capistrano de Abreu: "As Memórias Póstumas de Brás Cubas são um romance?", não é Machado que vai responder senão o próprio autor das Memórias, isto é Brás Cubas: «Respondia já o defunto Brás Cubas- como o leitor viu e vera no prólogo dele que vai adiante- que sim e que não, que era romance para uns e não o era para outros.»2 E , com efeito, dirigindo-se "Ao Leitor" no capitulo introdutivo da sua obra, acrescenta Brás Cubas: «A gente grave achara no livro aparências de puro romance ao passo que a gente frívola não achara nele o seu romance usual; ei-lo fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas da opinião.»3

Liberdade total do autor, desta vez claramente reivindicada: prólogo no prólogo, autor no autor, livro dentro do livro, romance dentro ou fora da forma do romance. Aparecem as bonecas russas à moda machadiana. Aparece o artista único desdobrado em quantos heróis criados por ele e que, por sua vez, criam personagens que entrarão no livro incluído no livro etc...livro ultimo a ser roído pelo verme «que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver»4 diz Brás Cubas ao dedicar-lhe as suas memórias «como saudosa lembrança».5 Uma vez roídas as suas carnes, o herói não tem mais a oferecer do que o seu livro que contém por sua vez as carnes quentes do herói destinado a acabar a sua vida nas paginas do próprio livro etc... Não é por acaso que Machado insiste, no seu prólogo, retomando por conta própria a palavra antes deixada ao seu herói, sobre um Brás Cubas que "andou à roda da vida". A vida começa e acaba para o defunto normal, definido por Brás como "autor defunto", mas a vida começa e não acaba nunca para o «defunto autor, para quem a campa foi outro berço».6 Instituindo pois a permanente renascença, digna de um Fénix, como principio generativo de sua obra de 1881, Machado oferece talvez uma pista de elucidação da programação das obras seguintes - isso apesar de nos levar já na falsa pista da esterilidade da vida terrestre de Brás na ultima famosa frase do capitulo das "negativas" que fecha o romance,7 a não ser que seja na verdadeira pista dum sobreviver perpétuo nas paginas dum livro. Desta arte abre-se o circulo da "roda da vida ", com as Memórias, circulo que se fecha com o Memorial mas que leva em si, como elemento de fecundidade e fecundação, as Memórias, Memórias que geram o Memorial etc...

Na circunferência da roda correm os anos, corre o século que Brás, sendo defunto autor, pode abrir ao infinito sobre o passado mais remoto, enquanto que Quincas Borba, o seu companheiro de escola, pode retomar a trajectória aberta para o futuro com a sua filosofia e o seu cão, e o seu titulo de herói - e mesmo de livro sem o saber. Outra vez o peritexto tem valor informativo, trata-se do prólogo da terceira edição de Quincas Borba:

Um amigo e confrade ilustre tem teimado comigo para que dê a este livro o seguimento de outro.
Com as Memórias Póstumas de Brás Cubas, donde este proveio, fará você uma trilogia e a Sofia de Quincas Borba ocupara

exclusivamente a terceira parte.

Algum tempo cuidei que podia ser, mas relendo agora estas paginas concluo que não. A Sofia esta aqui toda. Continua-la seria repeti-la, e acaso repetir o mesmo seria pecado. Creio que foi assim que me tacharam este e alguns outros dos livros que vim compondo pelo tempo afora no silêncio da minha vida. Vozes houve, generosas e fortes, que então me defenderam...1899 8

Opondo o silêncio da criação à publicidade ruidosa que a rodeia, Machado aproveita o contexto actualizado da recepção do romance para rejeitar a ideia de trilogia: seria uma pista tão fácil de seguir! Desta vez, o autor tampouco se desdobra no herói, Rubião, não lhe da os dons da escrita; dá-os, sim, ao filosofo da Humanitas que, por seu turno, deu o próprio nome ao seu cão a fim de reivindicar duplamente o titulo da obra e da eternidade: «Viverei perpetuamente no meu grande livro. Os que, porém, não souberem ler chamarão Quincas Borba ao meu cachorro e...».9 A vida perpétua no livro para os que sabem ler e a sobrevivência no cão para os que não sabem, eis outra maneira de pôr a campa no berço e o berço na campa. A filosofia Humanitas, que "reside em toda a parte ", imortaliza o filosofo que continuara a viver no nome do cão que continuara a viver no titulo do livro de Machado etc... "Ao vencedor as batatas" Vivera quem souber fazer da morte vida. A "roda da vida" recusa a trilogia que designaria o seu próprio fim enquanto que a obra machadiana visa uma dilatação sem fim, outra maneira de escapar a qualquer prescrição estreita dos estatutos da escrita. E o que assume Machado no desfecho do romance: «Mas vendo a morte do cão narrada em capitulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homónimo é que da titulo ao livro, e por que antes um que outro, - questão prenhe de questões que nos levariam longe...»10 Mas recusar a trilogia é também propor um seguimento despojado de toda a repetição, é aludir às potenciais etapas iniciáticas de arcanos que vão do "mago" da infância ao "sol" da velhice, que por sua vez ha de iluminar a vida da criança que nasce, tal como o livro alimenta o livro que...

Nesta perspectiva chega-se à obra enigmática por excelência, Dom Casmurro. Personagem sem laços com Brás ou Quincas, herói sem nome: Bentinho, Bento cuja alcunha será titulo da sua obra, não terá tampouco ligação qualquer com o criador a seguir, Aires. A sua descentração parece exclui-lo da famosa "roda da vida ". Seria contar sem a forma geométrica do triângulo que se impõe se ligarmos num ângulo Brás e Quincas (personagens interdependentes das duas primeiras obras), noutra extremidade Aires (duplamente criador da ficção e do Memorial que são as duas ultimas obras) e na terceira ponta o criador Dom Casmurro. Além duma possível construção alusiva à maçonaria, tal composição diagramática da fase dita de maturidade permitiria ler cada ponta do triângulo como parte integrante dos infinitos pontos constitutivos da circunferência. Rodando sobre si mesmos como à roda do circulo remeteriam à famosa roda da vida que não para nunca, alimentando-se sempre de si mesma. Desta arte o criador Machado se assemelharia à potência suprema ganhando assim imortalidade, isto é a tão anelada gloria literária desta vez eterna.

E é justamente em Dom Casmurro que se lê tal paradigma. Único romance a não ter prólogo nem advertência, postula outra dimensão da narração. A diferença das Memórias, não parece seguir o sistema das bonecas russas, não ha prólogo no prólogo; à diferença de Quincas Borba., não ha nome de homem no nome do cão nem titulo aparentemente polifônico. Porém é o romance seguramente mais revelador das imbricações narrativas, do livro no livro etc..., convocando nos dois primeiros capítulos os vários estatutos e forças potenciais do narrador, inclusive em relação com o espaço em que viveu e em que vive agora. Instaurando-se comentarista à maneira de César, fazendo da casa do Engenho Novo o lugar onde exerce um poder absoluto, Dom Casmurro define já a dimensão faustica da sua acção cuja apologia se lê no livro. Mas não se trata só duma dominação social senão também, especularmente, duma dominação literária, que remete à vigência eterna do livro que esta a escrever, e, portanto, do livro escrito por Machado.11 A indecidibilidade, em todos os níveis da narração, regula uma estrutura baseada no silêncio, isto é sobre o dito que nega, depois de dito, a sua validade, obrigando assim o leitor a procurar no não-dito do dito a sua razão de ser. Tal força do silêncio vai ser declinada ao infinito: silêncios onomásticos - Bento, Gloria, Capitu, Cabral, José Dias, Escobar, Ezequiel - que escondem por trás da proclamação ingénua uma polifonia de sentidos profundos.12 Da mesma maneira o titulo, nome do herói escrevendo a sua obra, lembra um duplo valor operativo na construção analéptica da narração e na sua dimensão de verdadeira opera.13

Ponta solta do triângulo, Dom Casmurro ocupa a situação nevrálgica da obra sem eco, do ponto de vista das personagens, e sem par, do ponto de vista do que a conforta cada dia mais na sua posição de criação chave de Machado. Serra por esta razão que Machado não se esconde por trás dum duplo, nem Brás, nem Quincas, nem Aires?: qualquer que seja a resposta, aqui é o "seu" herói, a sua criação direta, que se interroga sobre a criação literária, forma e conteúdo. E Dom Casmurro, autor duma obra enigmática, que assegura ao seu criador Machado a entrada na modernidade caracterizada assim por Nathalie Sarraute :

Avec l'avénement de l'homme moderne écrasé par une civilisation mécanique, réduit au déterminisme... le temps était bien passé où Proust avait pu oser croire qu'en poussant son impression aussi loin que le permettrait son pouvoir de pénétration" il pourrait "essayer d'aller jusqu'à ce fond extrême où gît la vérité, l'univers réel, notre impression authentique" chacun savait maintenant qu'il n'y avait pas d'extrême fond. "Notre impression s'était révélée à fonds multiples; et ces fonds s'étageaient à l'infini.14

Última ponta do triângulo, Esau e Jaco e O Memorial de Aires, retornam à composição em eco que ja vimos nas Memórias póstumas de Brás Cubas e em Quincas Borba . Desta vez será o Conselheiro Aires, o fermento da ligação, criador de personagens de ficção e relator do diário de dois anos de sua vida. A advertência que abre a obra de ficção lembra, de certa maneira, a das "Memórias Póstumas" na medida em que se trata dum autor já falecido. A vida da obra depois da morte do seu autor reveste porém outra dimensão: o peritexto, desta vez, "adverte" que foram manuscritos achados na secretaria do conselheiro. A simples numeração dos seis primeiros, a tinta encarnada, e a indicação "último" para o sétimo apontam para a problemática das duas últimas produções "romanescas" de Machado. Reformulam a implicação temporal do escritor, até agora "evitada": a publicação anterior de Esaú e Jacó à do "Memorial" baralha pela primeira vez a cronologia lógica.

De 1805, data de nascimento de Brás Cubas a 1891,fim da historia de Pedro e Paulo, cobre-se a historia do século XIX.15 O "Memorial", anunciado na advertência, opera um "flash back" sobre os anos 1888 - 1889, marcados pela abolição da escravidão. A sua publicação depois da narrativa do manuscrito qualificado de "ultimo" por Aires, pode ter duas incidências: a primeira permitiria sugerir a importância "vital" da abolição para um Machado, tantas vezes tachado de pouco comprometido com tal acontecimento histórico; incluída num diário intimo e conclusivo retomaria toda a sua importância.16 A segunda poderia evocar a rotação indiferenciada e indiferente da famosa roda da vida que, já o vimos nas Memórias Póstumas, gira para o passado como para o futuro. Desta vez o tempo histórico, a cronologia, patente no imaginário individual, não passaria dum ponto mínimo, um instante, no circulo dos séculos. Adaptando a forma ao fundo, Machado faz do diário um ultimo dialogo, não mais com o leitor senão com o papel.17 A dialéctica dilacerada dos capítulos dos romances anteriores deixa lugar ao esmiuçar das linhas numa sucessão de dias, quando não de horas ou minutos. Paginas que apenas dariam para "matar o tempo da barca de Petropolis", diz a advertência. E é efetivamente o tempo que se mata: dos anos 1888-1889 só restam os amores de Fidélia e Tristão, filhos postiços do casal Aguiar.18 Configurando o efémero da passagem do homem na terra, o vaivém permanente do conselheiro entre os casais, o antigo e o ainda em formação, reforça o vácuo de existências preocupadas com um presente mesquinho. A forma dilatada da narrativa do conselheiro, que inclui a passagem do Brasil para a Republica através dum valsa-hesitação emblemática em Esaú e Jacó , se restringe aqui a miudezas consignadas por um diplomata aposentado. Outra maneira de enfrentar a literatura, de aludir ao que ha de mudar definitivamente a vida da nação, a abolição, a partir duma escrita redigida "sem habilidade"; a partir sobretudo duma confrontação entre o Tempo da História e a história do tempo:

13 de Maio

Enfim lei. Nunca fui, nem o cargo me consentia ser propagandista da abolição, mas confesso que senti grande prazer quando soube da votação final do Senado e da sanção do Regente. Estava na Rua do Ouvidor, onde a agitação era grande e a alegria geral....

Apesar de recusar a sua participação activa à manifestação de regozijo popular, Aires pensa achar na casa dos Aguiar o mesmo entusiasmo patriótico:

14 de Maio, meia-noite

Não ha alegria publica que valha uma boa alegria particular.
Alegria dos velhos de ter recebido carta do filho postiço:
Era devida a carta; como a liberdade dos escravos, ainda que tardia chegava bem.19

Cada um tem pois o seu 13 e 14 de maio. A relatividade das considerações humanas em relação com o Momento histórico vem exemplificado numa espécie de parábola : o homem é capaz de dar mais importância à chegada da carta dum filho postiço, muito tempo esquecido dos falsos pais, do que à proclamação da liberação dos filhos verdadeiros do pais, os escravos todos que contribuíram à sua riqueza.

A insistência no trivial e no prosaico inerente à forma diarista do Memorial reforça a ambiguidade da relação de Aires: nem autobiografia mascarada de Machado e da sua vida pacata com Carolina, nem desvio fortuito de programação na cronologia das obras da segunda fase, o Memorial seria mais outra maneira de inscrever o provisório e o limitado da visão humana face à Historia na grande roda inexorável da vida dos tempos. Recua em analepse sintomática para confrontar a minimalização humana à monumentalização da Historia, pondo assim de relevo a contingência de toda a consideração "patriótica".20

Inscreve-se, desta arte, no que seria uma tetralogia, à maneira dos certames do teatro grego, três tragédias (Memórias póstumas, Quincas Borba, Esaú e Jacó) e uma sátira O Memorial. Ocupando duas pontas do triângulo, essas obras em eco deixam à quinta, Dom Casmurro, a terceira ponta que, encerrando todas as ilusões fracassadas de procura da verdade, imprime o movimento à roda das desilusões da vida terrestre. MEMORIAS e MEMORIAL nem abrem, nem fecham o circulo, são pontos que fazem da memória a forma subtil e volúvel da nossa mísera condição - tema recorrente da "quinqualogia" que já atravessou um século e instalou Machado na roda viva da gloria literária.

Notas

1. Machado de Assis, Obra completa, Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 1992, vol. 1, p.512.
2. Id., p. 512.
3. Id. sup., p. 513.
4. Id. sup., p. 511.
5. Id. ibid.
6. Id. sup., p. 513.
7. «Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria» - id., p. 639.
8. Id. sup., p. 642.
9. Id. sup., p. 645.
10. Id., p. 806.
11. Ver a este propósito os meus estudos: Lucette Petit, Eça et Machado devant le modèle réaliste: entre l'adhésion et l'affranchissement, Paris, Publications de la Sorbonne Nouvelle, 1994, p. 37-49; Rio de Janeiro: la ville allégorique de Machado de Assis, Paris, P.S.N., 1996, p. 51-75; Dom Casnurro: une subversion du LIVRE D'EZEQUIEL, Paris, Les Langues Néo-Latines, 1997, p. 131-158; Quand laisser parler l'élite c'est faire taire les masses: les stratégies d'écriture dans Dom Casmurro, Paris, P.S.N., p. 134-145.
12. Remeto para o estudo onomástico a Dom Casnurro: une subversion du Livre d'Ezequiel.
13. Vide op. cit.supra: Quand laisser parler l'élite c'est faire taire les masses …
14. Nathalie Sarraute, L'ère du soupçon, Paris, Gallimard - Folio Essais, 1956, p. 18-19.
15. A cronoçogia e a implicação histórica das obras da segunda fase são analizadas em Rio de Janeiro: la ville allégorique de Machado de Assis, op. cit. supra.
16. A implicaçao da palavra MEMORIAL recobraria assim toda a sua força de lugar privilegiado de memorizaçao de momentos predominantes aos quais alude Charles Du Bos no seu Journal"de 1923 (Tom.I): : «Sur le caractère général du MEMORIAL, j'ai marqué l'irrésistible besoin que l'on éprouve, dans les moments culminants de l'expérience intérieure, à dire non pas une fois mais plusieurs fois, et toujours dans les mêmes termes ce que l'on a éprouvé .», p. 104.
Relativamente a outro tipo de MEMORIAL, o de 1654 de Pascal que consigna a sua revelaçao da graça numa unica pagina levando este simples titulo, MEMORIAL, "«ce petit mot écrit en lettres majuscules, seul, au milieu de la premire ligne, commandant, illuminant, embrasant tout le parchemin» Henri Brémond: Histoire litté. rel., T. 4, Ecole de Port Royal, ch.9, p. 367.
17. «Papel, amigo papel,nao recolhas tudo o que escrever esta pena vadia...», Memorial de Aires -,op. cit., p. 1115.
«Ai deixo uma pagina feita de duas, ambas contrarias e filhas da mesma alma de sexagenario desenganado e guloso... Conversaçoes do papel e para o papel.», op. cit., p. 1122.
18. O peritexto confirma a composiçao do Memorial: « ... a parte relativa a uns dois anos(1888-1889),... pode dar uma narraçao seguida, que talvez interesse, apesar da forma de diario que tem... Vai como estava, conservando so o que liga o mesmo assunto.», op. cit., p. 1098. O assunto sendo a historia dos Aguiar e a dos filhos postiços, com, em tela de fundo, uma série de conflitos entre pais e verdadeiros filhos que sublinham o paradoxal da situaçao das personagens entre si e frente à Historia do momento.
19. Op. cit., p. 1118, 1119. Noutra ocasiao Aires estabelece um paralelo entre o aniversario da Aboliçao, passado sob silêncio, e o casamento de Fidélia e Tristao no 15 de Maio de 1889, rodeado de publicidade mas que, por sua vez, sempre em situaçoes contrastivas, fez de D. Carmo e Aguiar orfaos às avessas.
20. O Memorial de Sainte Hélène , obra de Las Cases publicado em 1823, é a relaçao de conversas que o autor teve com Napoléon durante o cativeiro em Sainte Hélène. As datas, do dia 20 de Junho de 1815 ao 25 de Novembro de 1816 lembram as datas do Memorial de Aires que nao cobre dois anos senao ano e meio também (9 de Janeiro de 1888 - 30 de Agosto de1889, o ultimo dia sendo sem data). A relativizaçao da grande gesta napoleonica é o grande problema levantado pelo Memorial de Sainte Hélène.