Fradique Mendes:
Eça, a heteronímia e o vencidismo

("Esse texto também aparece na Revista Veredas N° 3")

Paulo Motta Oliveira
UFMG

Pedro da Silveira, no prefácio que faz aos Versos de Carlos Fradique Mendes, considera que, com esse personagem, estamos «perante uma espécie de pseudónimo, ao qual mais atribuíram uma biografia, ou seja, perante um heterónimo, cujos 'pais' foram Eça, Antero e Batalha Reis (...) Heterónimo [afirmará em seguida] (...) como os de Fernando Pessoa».1 Logo depois, ao supor que sua afirmação poderia gerar discordâncias, apontará as diferenças que, para ele, existem entre as categorias de pseudônimo e de heterônimo, concluindo que a marca diferencial entre ambas advém de que apenas na segunda é construído um ser ficcional ao qual é atribuída não só uma obra, mas também uma biografia, como, por sinal, ocorre com Fradique. Ou seja, para Pedro da Silveira, esse personagem foi um heterônimo avant la lettre.

Também Joel Serrão, em O Primeiro Fradique Mendes, considerará esse Fradique como um heterônimo, assumindo posturas muito próximas das levantadas por Pedro da Silveira, e chegando mesmo a analisar a existência de certas tendências heteronímicas não só em Eça de Queirós, mas também em Antero de Quental e mesmo em Jaime Batalha Reis.2

Se, pelos motivos levantados, o Fradique que publicou, em 1869, alguns poemas em A Revolução de Setembro, pode ser considerado um heterônimo, parece-nos que, com muito mais razão, isso seria válido para esse outro Fradique que teve, aceitemos o jogo, suas memórias escritas e parte de sua correspondência publicada por seu dileto amigo, Eça de Queiroz. Afinal, se do primeiro Fradique tínhamos apenas alguns poemas e breves indicações biográficas, que foram publicadas junto com seus versos,3 desse outro temos uma biografia praticamente completa e um conjunto de cartas. Poderíamos, assim, considerar o Fradique de A Correspondência como um heterônimo?

Creio que não é possível responder a essa pergunta sem pensar em um outro livro em que temos uma situação muito próxima à presente nessa obra de Eça. Refiro-me aqui a Coração, Cabeça e Estômago, publicado mais de trinta anos antes de A Correspondência, romance em que Camilo Castelo Branco simula ser o editor dos papéis de seu finado amigo Silvestre da Silva.4 Também aqui são atribuídas a um personagem não só uma obra - que inclui de papéis de carácter biográfico a poesias - mas também uma biografia, sem que, parece-nos, se tenha levantado a hipótese de Silvestre da Silva poder ser considerado como um heterônimo de Camilo Castelo Branco. Existiria, assim, alguma diferença entre essas duas obras, a de Eça e a de Camilo, apesar das semelhanças que apresentam, que permitiria pensar na existência de um carácter heteronímico no caso da mais recente, e não no da outra? Ou essa questão, de fato, não se coloca nem mesmo para o livro de Eça, como poderia, e foi colocada, para o Fradique de 1869?
Um rápido confronto entre os livros acima referidos poderá permitir que formulemos, se não uma resposta categórica a essas questões, ao menos algumas hipóteses a partir das quais seria possível clarificar o problema que aqui estamos tratando.
De início devemos notar que existe, nessa obra de Eça, uma preocupação de dar uma consistência de verossímil realidade a Fradique Mendes que não ocorre, pelo menos com a mesma intensidade, na obra de Camilo. Se nesta, o que tenta garantir um estatuto de ser real para Silvestre é a suposta conversa, presente no "Preâmbulo", entre um eu que o leitor deduz ser Camilo Castelo Branco e Faustino Xavier de Novais,5 naquela esse procedimento se multiplica e está presente de muitas formas e com variadas facetas. Poderíamos aqui citar várias delas, mas nos deteremos apenas nas que considero mais significativas.
Uma dessas formas aparece, de maneira bastante explícita, na quarta parte das "Memórias", quando o narrador afirma que Fradique, «do outono de 1875 ao verão de 1876» travou contato, em Lisboa, com «alguns dos meus camaradas».6 O memorialista passará a citar, então, opiniões desses amigos sobre Fradique: transcreverá uma carta de Oliveira Martins, datada de novembro de 1877, além de outras cartas de Ramalho Ortigão e de Guerra Junqueiro, citará, em seguida, as opiniões de Carlos Mayer, e de J. Teixeira de Azevedo - personagem a que voltaremos mais tarde -, além de referir-se, brevemente, ao encontro de Fradique com Antero.7
Em outra parte dessas "Memórias" encontramos um procedimento bastante próximo a este: aquela em que são discutidas as características da suposta obra que teria sido escrita por Fradique, e que estaria nos papéis que o autor das Lapidárias, após a sua morte, legou a Madame Lobrinska. Também nessa parte teremos expressas, entre outras, as opiniões de J. Teixeira de Azevedo, Oliveira Martins e Ramalho Ortigão.8
Certamente poderíamos aqui arrolar uma série de outras características que tentam dar uma concretude ao personagem, como a pormenorizada descrição que Eça faz do aspecto físico das cartas de Fradique, ou dos critérios que utilizou na publicação das mesmas, entre outras possíveis. Mas, cremos, tudo o que aqui dissemos só vem a comprovar a tentativa, levada a contento com imenso cuidado, de construir um Fradique que parece, de fato, ter existido.
Se o que levantamos já seria um motivo para podermos pensar que Fradique pode se constituir em um heterônimo, enquanto o mesmo não ocorre com o já citado Silvestre da Silva, um outro aspecto torna a questão da heteronímia ainda mais pertinente nesse livro de Eça: é que nele podemos encontrar, prefiguradas, várias questões que depois virão a ser geradas ou tratadas por Fernando Pessoa. Atenho-me, aqui, dado o espaço que temos, a três aspectos básicos.
O primeiro deles liga-se ao fato de que a própria questão do outrar-se, do «sentir tudo / De todas as maneiras»,9 já aparece em Fradique. Como afirmará o narrador
Fradique (...) transformava-se em "cidadão das cidades que visitava". Mantinha por princípio que se devia momentâneamente crer para bem compreender uma crença. Assim se fizera babista, para penetrar e desvendar o Babismo. Assim se afiliara em Paris a um clube revolucionário, As Panteras de Batignolles, e frequentara as suas sessões, encolhido numa quinzena sórdida pregada com alfinetes, com a esperança de lá colher "a flor de alguma extravagância instrutiva". Assim se incorporava em Londres aos Positivistas rituais (...) Assim se ligara com os Teosofistas (...) De sorte que dele bem se pode dizer, que foi o devoto de todas as Religiões, o partidário de todos os Partidos, o discípulo de todas as Filosofias.10
Em outro momento, numa postura próxima a essa, o narrador afirma que aquilo que tornava as viagens de Fradique «fecundas como ensino era a sua rápida e carinhosa simpatia por todos os povos. (...) Fradique amava logo os costumes, as ideias, os preconceirtos dos homens que o cercavam: e, fundindo-se com eles no seu modo de pensar e de sentir, recebia uma lição directa e viva de cada sociedade em que mergulhava»11
Se esses trechos praticamente falam por si, o segundo aspecto que queria aqui abordar, ligado com a questão da heteronímia, é a relação entre o aparente criador - Eça - e a criatura - Fradique.
No primeiro encontro que temos entre Fradique e Eça, este fica chocado com a forma como aquele se refere a Beaudelaire:
- Vejo então - disse ele [Fradique]- que é um devoto do maganão das Flores do Mal!
Corei, àquele espantoso termo de maganão. E, muito grave, confessei que para mim Baudelaire dominava, à maneira dum grande astro, logo abaixo de Hugo, na moderna Poesia. Então Fradique, sorrindo paternalmente, afiançou que bem cedo perderia essa ilusão!12

Se aqui Eça fica escandalizado com a opinião de Fradique, iniciará a terceira parte das "Memórias" afirmando: «Alguns anos passaram. Trabalhei, viajei. Melhor fui conhecendo os homens e a realidade das coisas, perdi a idolatria da Forma, não tornei a ler Baudelaire».13 Assim, podemos perceber que a intimidade que existirá entre Eça e Fradique só poderá ocorrer pois o narrador se aproximará das posturas de Fradique. Logo, nas relações entre eles, será a criatura-Fradique o mestre, e o criador-Eça o discípulo. Diante dessa situação, um leitor contemporâneo se verá levado a pensar na forma como Fernando Pessoa se refere a Caeiro na famosa carta que escrever para Casais Monteiro: «E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive.»14

Estamos, como é fácil notar, bem próximos da experiência heteronímica pessoana. Um dado ainda mais marcante dessa aproximação, o terceiro dos aspectos que gostaria de aqui abordar, é o de que a existência de Fradique pode garar certos problemas que, suporíamos, só existiriam com Pessoa, ou a partir dele. Explico-me. Ao estar a falar de como Fradique se sentia incomodado com a tentativa de imitação de Paris que existia na vida social de Lisboa, o narrador dirá

Essa "saloia macaqueação", superiormente denunciada por ele [Fradique] numa carta que me escreveu em 1885, e onde assenta, num luminoso resumo que "Lisboa é uma cidade traduzida do francês em calão" - tornava-se para Fradique, apenas transpunha Santa Apolónia, um tormento sincero. E sua ansiedade perpétua era então descobrir, através da frandulagem do Francesismo, algum resto do genuino Portugal.15

Ora, existia no espólio de Eça um artigo, sintomaticamente intitulado "O Francesismo", que foi publicado em 1912 nas Últimas Páginas e que, para João Medina, foi escrito entre 1887 e 1888.16 Esse artigo começa da seguinte forma:

Há já longos anos que eu lancei a fórmula: - Portugal é um país traduzido do francês em vernáculo. A secura, a impaciência, com que ela foi acolhida, provou-me irrecusavelmente que a minha fórmula era sutil, exata, e se colava à realidade como uma pelica. E para lhe manter a superioridade preciosa da exatidão, fui bem depressa forçado a alterá-la, de acordo com a observação e a experiência. E de novo a lancei assim aperfeiçoada: - Portugal é um país traduzido do francês em calão. E desta vez a minha fórmula foi acolhida com simpatia, com reboliço, e rolou de mão em mão como uma moeda de ouro bem cunhada (…).17

Como podemos notar, em A Correspondência, Eça atribui a Fradique a frase "Lisboa é uma cidade traduzida do francês em calão". Já em "O Francesismo" o eu do artigo diz que inventara a frase "Portugal é um país traduzido do francês em calão". Quem seria, então, o autor do artigo: Eça ou Fradique? Essa dúvida pode ser reforçada pelo fato de que também Fradique tem o seu espólio, como comprovam as cartas desse personagem publicadas após a morte de Eça. Não importa tanto que outros elementos do artigo - como uma autobiografia que aparece em certos momentos que se aproxima da de Eça e não da de Fradique - indiquem que o autor deve ser Eça. O simples fato de poder existir essa dúvida, já mostra como Fradique é, de fato, um heterônimo, e que Eça o gerou uns vinte anos antes dos de Pessoa, se acreditarmos que os heterônimos deste surgiram na década de 10. E, devemos aqui notar, o jogo eciano é ainda mais intrincado do que poderíamos supor à primeira vista, pois as idéias presentes em "O Francesismo" acabarão por ser utilizadas em uma carta inédita de Fradique, enviada a Eduardo Prado, para explicar certas características do Brasil, país que, por sinal, Eça não havia visitado, mas Fradique sim.18

Todos esses elementos mostram o quanto a criação de Fradique já institui uma aura heteronímica, que, pouco depois, viria a eclodir de forma lapidar em Pessoa. Mas se Fradique, por tudo o que dissemos, pode ser considerado como um heterônimo, parece-nos que, diferentemente dos de Pessoa, esse será, mesmo em A Correspondência, um heterônimo coletivo. Em relação a esse aspecto, devemos notar que os outros dois pais do primeiro Fradique aparecem, nesse livro de Eça, de formas especiais. Jaime Batalha Reis será, curiosamente, o único dos amigos do romancista de Os Maias que aparecerá não através de seu próprio nome, mas de um pseudônimo. Como afirma Beatriz Cinatti Batalha Reis, «J. Teixeira de Azevedo é caricatura de Jaime Batalha Reis que usava esses nomes de sua família como pseudônimo».19 Por outro lado, alguns aspectos da biografia de Fradique - o fato de pertencer «a uma velha e rica família dos açores» e o de descender «por varonia do navegador D. Lopo Mendes»20 que viveu no século XVI, - aproximam a biografia desse personagem da de Antero, que também pertencia a «uma das mais antigas famílias»21 dos Açores, e que também era «descendente dos navegadores católicos do século XVI»,22 como ele declarou na carta autobiográfica a Wilhelm Stork.

Mas não é apenas por essa presença especial, que cria uma espécie de ponte e de continuidade entre o primeiro e o Fradique de A Correspondência, que considero esse personagem como um heterônimo coletivo. Um outro elemento, aparentemente secundário, faz com que pense dessa forma.

Em um dado momento do livro o narrador aponta que Fustan de Carmanges havia notado que, com a idade, ocorreu com Fradique algo que qualificou como "le degel de Fradique".23 Ora, Eça fala aqui de Fustan de Carmanges como se ele fosse bastante conhecido, e como se, por isso, não fosse necessário indicar quem ele é, da mesma forma como não fora necessário indicar quem eram Oliveira Martins, Ramalho Ortigão ou Guerra Junqueiro. Mas, ao que tudo indica, não existiu um Fustan de Carmanges, e esse nome, de fato, se aproxima bastante do de Fustel de Coulanges, historiador francês que viveu de 1830 a 1889. Forjar esse nome parece indicar mais do que uma proteção contra possíveis problemas. Parece-me que, ao fazê-lo, e ao não ter a necessidade de fazer o mesmo com seus amigos, Eça está a indicar que estes também fazem parte do jogo, que, de alguma forma, são também criadores desse Fradique.

Assim Fradique pode ser considerado não só como um heterônimo, mas provavelmente também como o símbolo de uma geração. E, se pensarmos na distância que separa o Fradique das "Memórias" daquele das cartas, que nada tem da grande envergadura com que Eça apresentou o primeiro - lembremos aqui, por exemplo, em como o autor da Lapidárias usa a sua grande inteligência para seduzir, amar e depois se descartar de Clara, sem que falte nesse episódio doses de cinismo e de hipocrisia24 - podemos considerar que talvez essa distância possa simbolizar justamente o imenso abismo que separou o que essa geração, a de 70, esperava ser, daquilo em que, por fim, se transformou. Fradique talvez seja o símbolo desses intelectuais que se reuniam para almoços e jantares e que, mesmo sendo individualmente vencedores, se consideravam, com razão, os vencidos da vida.

Referências Bibliográficas

CASTELO BRANCO, Camilo, Coração, Cabeça e Estômago, Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1907, 3a. ed.
MEDINA, João, Eça Político, Lisboa, Seara Nova, 1974.
PESSOA, Fernando, Obra Poética, Rio de Janeiro, Aguilar, 1986.
QUEIROZ, Eça, A Correspondência de Fradique Mendes, Porto, Lello & Irmão, 1946(a).
QUEIROZ, Eça, Últimas Páginas, Porto, Lello & Irmão, 1946(b).
QUENTAL, Antero de, Carta autobiográfica, Poesia e Prosa, São Paulo, Cultrix, 1974, p. 130-139.
REIS, Beatriz Cinatti Batalha, Eça de Queiroz e Jaime Batalha Reis - Cartas e recordações do seu convívio, Porto, Lello & Irmão, 1966.
SERRÃO, Joel, O Primeiro Fradique, Lisboa, Livros Horizonte, 1985.
SILVEIRA, Pedro da, Prefácio, IN: MENDES, Carlos Fradique, Versos, Lisboa, Edições 70, 1973.