De Pedro a Paula: um caso de amor de Helder Macedo

("Esse texto também aparece na Revista Veredas N° 3")

Maria Lúcia Dal Farra
Universidade Estadual de Feira de Santana

Lá pelas tantas, o narrador de Pedro e Paula conta o caso de um sujeito perseguido pelo regime salazarista, ao que tudo indica, um alentejano com dez anos de Peniche e Tarrafal nas torturadas costas, que aproveitara o tempo da prisão para estudar inglês. Auto-didata e sem contar com ninguém que falasse essa língua, ele aprendeu surdamente a conhecer o significado das palavras inglesas que, entretanto, lia à maneira portuguesa, segundo, pois, o modo fonético nativo. Assim, muito embora soubesse inglês, jamais o compreenderia se o ouvisse falado, já que ele entendia objetivamente certo aquela língua sem ter, todavia, a menor idéia dos sons.

Da minha parte, se refiro logo de entrada esta curiosa experiência do que neste romance se chama "inglês de prisão", é para buscar dividir com vocês a sensação que me acometeu durante a leitura dessa obra publicada no princípio do ano passado.1 Porque, de fato, eu me vi, por algum tempo, praticando, em Pedro e Paula, e sem o saber, a leitura de uma língua estrangeira como se minha fosse... E isso porque o romance, de uma leveza tamanha e de uma simplicidade invejável, se entrega a você com toda a familiaridade, logo se aconchegando, íntimo, no seu cotidiano, conquistando um assento ao seu lado à mesa dos frugais, rodeando-o com a discrição de quem se faz quase imperceptível.

Num entrecho que dá conta dos últimos cinqüenta e dois anos desse nosso espantoso mundo de língua portuguesa, o romance de Helder Macedo se aplica em acompanhar as personagens, reunidas em torno dos não idênticos irmãos Pedro (a pedra e o templo) e Paula (a fundação e a invenção) - de início, sob a era do salazarismo e, depois do 25 de Abril, sob a égide da democracia. Trata-se de uma narrativa a respeito da geração portuguesa do pós-guerra, encarnada, pois, pelo casal de gêmeos vindo ao mundo sob os auspícios de uma dentista alemã que, graças à sua eclética formação nazista em diferentes ramos dos campos de concentração, pôde trazê-los à luz numa Lisboa-cidade-aberta, na qual desembarcavam, na altura, os foragidos dos quatro cantos do planeta - inclusive aqueles egressos de Casablanca, o filme.

E logo no plano de vôo da aeronave que traz são e salvo o casal Ilse e Laszlo para Lisboa, graças ao apaixonado altruísmo político de Rick (o nosso saudoso Humphrey Bogart), já sabemos que as áfricas não se deixam ficar para trás, visto que se ligam à Península Ibérica, conferindo a Portugal a feição, aliás, verdadeira, de um todo - então, imperial. Aliás, é nesse trânsito entre o continente africano e o europeu, e depois entre esses e o americano, como em teias ocultas da mesma língua, que o romance se embrenha, muito embora, de todos os personagens, apenas o autor tenha vindo ao Brasil após a abertura política. Antes do golpe de 64, Gabriel, quando embaixador, havia servido aqui nos idos de 1961; também o pide Ricardo Vale para cá virá, fugido da Revolução de Abril, esconder-se sob os capotes militares tupiniquins que, aliás, hão de desenganá-lo, e muito, quando reconhecem o MPLA como legítimo governo de Angola. E a triangulação, quem sabe uma marca digital desta obra, que, ilustrando o que digo acaba de comparecer geograficamente, encontra-se também na origem dos gêmeos, por meio de José, Ana e Gabriel, respectivamente pais e padrinho das crianças.

Reparem que, de propósito, coloco Ana no centro da trinca, porque ela pode ser lida tanto da esquerda para a direita, como da direita para esquerda - palíndrome como é -, medianeira na amizade entre os compadres e, mais que tudo, indecisa na natureza do amor que devota a um e outro - e, por isso mesmo, futuro pomo de discórdia. Reparo também que o despiste da nomenclatura bíblica contido nos nomes dessas personagens - quem sabe se em tributo a um outro romance de gêmeos, aquele de Machado de Assis - também se espalha no feitio dos nomes dos atuais gêmeos de Helder Macedo, pois que, descendo das hierarquias do sagrado familiar e da alçada dos arcanjos, as designações vêm alcançar, agora, a faixa dos apóstolos. A propósito de Machado, abandonamos, com Esaú e Jacó, o Velho Testamento, e entramos no Novo, com Pedro e Paula: do século XIX para o XX; dos antigos regimes, monarquia e república, para os tempos modernos do salazarismo e da democracia possível.

Nascidos em Portugal, os nossos gêmeos são criados, todavia, em Moçambique, para onde segue a recente família, acompanhando José que, nomeado para um importante cargo político do governo, obtido mercê da mediação de Marcello Caetano, será sempre espicaçado pela crítica e agressiva resistência de Ana, que ele vai banalizando e minimizando como sintoma de uma "loucura" que, de início, não é mais que um contraponto ideológico.

Diverso de José tornou-se Gabriel que, do serviço diplomático, migra para um exílio estético em Londres, onde se comporta como um voyeur do descalabro salazarista, rompido com o compadre. Pedro e Paula vão estudar em Lisboa, onde Pedro faz medicina e a irmã escola de pintura. Todavia, as inquietações de Paula a levam para Paris, onde atravessa o Maio de 68, e para Londres, em busca do padrinho, por quem se apaixona e com quem passará a viver, a seguir, em Lisboa.

Já aqui, uma outra dimensão machadiana tem lugar reiterando a referida triangulação. Porque, reparem, Ana insiste em dizer, como num bordão que se repetirá no transcorrer do romance, que, engraçado, «o Pedro tem os olhos do pai e a Paula do padrinho»,2 o que é em absoluto improvável enquanto fato real, nas não enquanto dado intertextual. Os olhos sempre mutáveis de Paula, esse «perigoso fascínio daqueles olhos nunca os mesmos»3 lembram, em muito, os olhos de ressaca de Capitu. Por sua vez, e de um outro ponto de vista, Paula ocupa, nesse novo contexto, o lugar de Ezequiel que, sendo filho de Bentinho, é a cara de Escobar. E, dessa maneira, atravessamos, ao que tudo indica, o limiar do universo casmurra.

Quanto a Pedro, preso de um impasse a que a mentira o levou, vai aceitar, para desconsolado desapontamento da irmã, o arranjo proposto pelo famigerado Ricardo Vale, pide ultramarino assessor de seu pai, nesta altura em vigias pela metrópole, indo exercer uma inacabada medicina em Lourenço Marques. De modo que, por tempos do 25 de Abril, a vida dos gêmeos já se encontra bem desirmanada, época em que José se suicida, em que Pedro foge para Lisboa, em que o Ricardo "vale por dois" se pica para o Brasil, e em que Ana, pouco a pouco se instalando na loucura que lhe fora atribuída durante toda a vida, é recolhida para a vivenda do Azeitão.

Daqui por diante, resta à Paula reconhecer, gradativamente no irmão, o pobre diabo que sempre foi, o que vai lhe custar por derradeiro a dupla violentação de um inominável incesto-estupro, que nem mesmo a absurda "proteção" do recém-regressado pide pôde evitar. Filipa, a filha que lhe nascerá da sua união com Gabriel (ou do incesto) é criada em Londres, onde Paula habita agora, e onde lhe morre o querido e terno Gabriel. E a dúvida machadiana casmurra reaparece então, já como chave de ouro para encerramento do livro: será, essa menina, filha do tio ou do marido da mãe?

Eis, portanto, rapidamente traçado e quase sem nenhum relevo, o enredo que este último romance de Helder Macedo explicita em primeiro plano. Como se vê, trata-se de um romance de amor, por meio do qual o nosso Autor nos oferece uma deliciosa história de preocupações contemporâneas, movimentada e empolgante, responsável e crítica, elegante e discreta, que nos envolve com o fascínio de uma mulher deslumbrante e singela, que nos seduz e nos arrebata para a sua causa de beleza, dignidade, delicadeza e retidão de caráter, por meio de um estilo de sutilíssima ironia e de delicioso humor, que dão forma a uma narrativa repleta de matizes, modulações e torneios de espírito, nem um pouco linear - mesmo quando assim parece se doar ao leitor.

É muito provável que o nosso Autor, em tributo ao Machado criador dos gêmeos antagonistas e ideologicamente ímpares, tenha se rendido a um conflito biovular, pondo em litígio o salazarismo e a democracia nas figuras respectivas de Pedro e de Paula, cujas relações são sempre permeadas por motivações políticas. E que também, possivelmente inspirado pela triangulação existente entre Esaú, Flora e Jacó, o nosso Autor, em intertextual homenagem ao colega romancista, a tenha disseminado inicialmente por entre a família de origem, por entre José, Ana e Gabriel, como já referi, readaptando-a, depois e caleidoscopicamente, mas nunca de maneira redutora, entre outros personagens. Por seu turno, o tal simbolismo, que a narrativa gosta de nomear como uma de suas atividades e que fica patente nas atribuições bíblicas que já indiquei, se torna enriquecido quando a ambigüidade existente na ação geminar se asila na filha de Paula. Falamos, pois, de "filipa", o nome dado à criança de origem enigmática, quando topamos com sementes grudadas uma na outra, quando se trata de frutas inconhas, quando queremos nos referir a frutas que nascem pegadas uma na outra ou, então, a coisas muito ligadas entre si. Neste sentido, Filipa guarda, desde o batismo, o liame da origem gêmea da mãe, ao mesmo tempo em que prevê, na sua etimologia, a crucial pergunta casmurra sobre a sua filiação: Pedro ou Gabriel? Pergunta, aliás, insisto, que a própria Paula se fazia a respeito de si mesma: José ou Gabriel?

Ora, através deste último evento, que nos desloca, do fim, para o começo do romance, ficamos, pois, autorizados a aproximar esta história de Pedro e Paula à letra da canção que o negro Samuel toca e canta para os habitués do Polana, em Lourenço Marques, e que, antes, havia cantado para o Rick, em Casablanca, e que, intervaladamente entre uma e outra audição, havia tocado para o Woody Allen em Play it again, Sam - sempre repetindo a mesma canção, muito embora em tempos em extremo mudados. E a aproximação é a seguinte: que "the simple facts of life are such they cannot be removed"; que "the fundamental things apply/ as time goes by", e que, afinal, "no matter what the future brings/ as time goes by". Assim, através da letra da música de Herman Hupfeld, que o nosso pianista continuará a tocar até o fim dos tempos, e sobretudo antes que o mal disfarçado pide venha exigir, em plena Revolução de Abril, que a substitua pela "A Portuguesa", da mesma forma que, no filme, Laszlo solicitara "A Marselhesa" - ficamos aptos a entender com mais propriedade, a presença, muitas vezes paródica, do Casablanca neste romance. Enfim, trata-se, como parece que se tornou óbvio, da ainda mesma velha estória, da mesma velha história de como caminha a humanidade, como o diria James Dean: "it's still the same old story/ a fight for love and glory, / a case of do or die"...

E aqui faço uma pausa para declarar que foi só até este ponto que o meu "inglês de prisão" deu pra chegar. Todavia, ruídos vindos das palavras lidas - uma verdadeira revolução fonética! - me alertavam que não por acaso se fala, ali, da necessidade de promover maiores zonas de silêncio e figurações a menos. Que, não por acaso, a pintura de Paula, "plasma fértil", miscelânea de inúmeros fragmentos do real numa pincelada de textura e cor, guarda o segredo de algo que está ali para não ser notado. De fato. Para onde tinha eu expulsado, nessa leitura, aquela personagem que, muito embora procurasse se manter neutro diante do enredo, era, em contrapartida, por ele tragado? Por que não tocara eu na questão da posse, da proteção e da liberdade, fatores fundamentais para o entendimento da interiorização do fato político no comportamento das personagens?

Busco retomar, portanto, as perspectivas que, segundo suponho, fazem parte dos territórios silenciosos desta obra. Assim, trago para a cena a questão da propriedade que, do meu ponto-de-vista, erige-se como uma baliza dentro deste romance, ocupando tanto a atenção da narrativa, no que concerne ao desempenho das personagens, quanto a atenção do discurso que as constrói. A meu ver, o próprio procedimento composicional de Pedro e Paula sofre o influxo dessa discussão.

Proudhon é, sem dúvida, uma referência política significativa dentro da ambiência progressista na era salazarista em trânsito para o 25 de Abril. José, Ana e Gabriel, os três colegas de Direito, o invocam, e José o utilizará mesmo como uma divisa de bolso sempre pronta a embainhar contra o futuro diplomata, pois que este vem de família tradicional e de posses, herdeiro de vastas terras herdadas. Por outro lado, a posse, contra a qual a insuportável Fernanda investe na sua missão revolucionária, constitui o seu sonho secreto, ao qual, depois do 25 de Abril, dá completa vazão comprando, compulsivamente e na proporção direta dos ganhos do marido, sobrados antigos habitados por idosos terminais - insaciável, desejando sempre mais e mais. Todavia, o sintoma mais agudo do perverso amálgama entre propriedade e proteção vem dado por duas personagens que, ao fim e ao cabo, não são psicologicamente assim tão distintas. Refiro-me a Pedro e a Ricardo Vale.

Tanto um quanto outro dirigem sempre os seus esforços de tutela para a aparentemente frágil Paula. O pide "Vale por dois", assim que a conhece, fala com o irmão encarando a ela, como se Paula fosse Pedro, com um olhar invasor e transbordante que quer cobri-la inteira e asfixiá-la com a sua já precoce e sinistra vontade de proteção. Quando de regresso à África, e mercê da interposta pessoa de Ana, ele não cessará de se empenhar em possuir, por meio da mãe, à Paula: de um lado, obtendo, passo a passo, através dos seus colegas da metrópole, precisas informações sobre o seu comportamento, como se, assim, pudesse evitar que ela incorresse em deslizes políticos, sossegando, com tais diligências, as excessivas preocupações da mãe. De outro, para protegê-la de quaisquer castigos físicos, Ricardo Vale vai aplicá-los, em contrapartida, no próprio corpo de Ana que, aliás, só assim, pode punir-se a si na imagem da filha e, ao mesmo tempo, desfrutar, através de Paula, a vida que sempre almejara ter. Ambos, portanto, carrasco e vítima, o pide Ricardo e a mãe Ana, estão interessados, cada um por seu turno, em tomar posse de Paula.

De volta do Brasil, o "Vale por dois" há de se dedicar, em Lisboa, a segui-la por toda a parte, pressentindo a presença fantasmática de uma outra ameaça que paira sobre Paula, que não a que planeja. Mas dessa, que se arma desde sempre, desde o útero comum, ele não conseguirá salvá-la. E é muito provável que, isso sim!, tenha até de propósito se esquivado de impedi-la, procedendo, diante dessa possessão, antes como um espectador prazeiroso e sádico, ou, na pior das hipóteses, como um agente por interposta pessoa - pela interposta pessoa do Pedro, seu vicário nessa ação.

De maneira que a brutalidade do estupro incestuoso, várias vezes antes ensaiado por Pedro contra a irmã, e por fim executado na dimensão dessa agressividade sem peias, só pode ser entendido à luz da sua perda de ascendência sobre ela que, em definitivo, se alforriara da proteção e do jugo do seu gêmeo. E, segundo sua própria tese a respeito da vida, Pedro macula a irmã naquilo que ele mesmo considera os dois atos biológicos fundamentais para a sobrevivência da humanidade: a ingestão e a expulsão, o sêmen e o parto - e, por isso mesmo, essa ação, dita de vida e de preservação da espécie humana, se transmuta, pelas mãos de Pedro contra Paula, em ato de morte.

A compensar a exuberância raivosa e predatória da violentação sofrida por Paula, o reverso é dado pelo derradeiro gesto de amor de Gabriel que, só assim, à custa de muita ternura, em lugar de repugnância, à custa de permanente empenho da liberdade, em lugar da força, anulou e retirou para sempre de dentro dessa mulher o sabor de morte que o seu irmão tinha ali metido - dando-lhe de volta a vida.

Assim, a grande constatação que se retira dessa travessia do salazarismo para o 25 de Abril até a atualidade, rota que este romance perfaz, é a de que a chamada proteção a alguém não passa, afinal, de um disfarce da vontade de poder, de uma estratégia da vontade de posse: só a procura de emancipação do outro pode favorecer o seu florescer, a sua integridade. O entendimento desta simples verdade se impõe, a meu ver, como a mais significativa proferição que emana desta narrativa, e, aliás, como um autêntico ato de amor que apenas o exercício da democracia pôde ensinar para sempre. Ora, esse é o teor do amor ofertado por Gabriel à Paula; também esse é o amor que o nosso Autor experimenta por suas personagens, mercê dessa mesma experiência vivida por dentro, no âmago mesmo do processo composicional romanesco.

O narrador-autor de Pedro e Paula, uma das mais consistentes personagens do romance, move-se no interior da narrativa com muita naturalidade, desenhando a imagem de um comentarista, de um agradável palrador, um causeur cheio de urbanidades, com quem a gente se entretém, e que faz considerações, dá palpites, corrige-se, remete-se ao leitor, cavaqueando alentada mas discretamente. Analisa conosco os problemas a enfrentar na sua história, discute alternativas, questões de verossimilhança, pendências a respeito do procedimento ficcional, fatos relativos à teoria do romance. Vê-se, assim, que a presença deste vivente nos interstícios da narrativa imprime a este romance um outro ritmo de leitura: devido à sua prosódia oral e descontraída, à pontuação coloquial, à intimidade com que nos fala em direto, ele fica de cara com o leitor, sem outra mediação que a sua própria mente. Por isso mesmo, a ficção se revela como o lugar da fala sem segredos, como a região do desfingimento, da sinceridade exercida como um possível.

Os papéis entregues às personagens são aproximados ao jogo de baralho, onde, contudo, nem sempre quem tem a melhor mão é quem ganha, já que o livre-arbítrio desempenha na ficção função tal e qual na vida real. Todavia, como o nosso narrador-autor precisa fazer o que lhe cumpre para proceder como um «profissional equânime»,4 que procura ser justo e não tomar partidos, muito embora tenha muita vontade de fazê-lo - ele se obriga a uma extrema meticulosidade, em virtude da qual expressões dubitativas como "julgo eu", "sabe-se lá", "quero acreditar", "presumo antes", etc - abundam no seu repertório discursivo. Algo semelhante também ocorre com o emprego verbal, muitas vezes no condicional para designar o presente, ou tratando o futuro como passado perfeito.

cissitudes de um Autor no processo de composição do seu romance, neste caso, sinuoso, deslizante - l'imagination au pouvoir! Assim, a partida se dá através de, digamos, um marco, um padrão, de uma pedra que institui o modelo romanesco que ele deve seguir, e do qual, paulatinamente, irá se desviando. O seu primeiro passo consiste na criação de «hipotéticos corpos» de personagens aos quais se faz necessário acrescentar os «espíritos factuais»,5 levando em conta a presença das plausibilidades que, de certeza, tendem a interferir no desempenho desses seres.

Mas aos poucos o nosso Autor vai se distanciando do templo romanesco e se dando conta de que as personagens acabam tomando as rédeas da narrativa, apresentando-se como entidades autônomas, que se confrontam com ele, esquecidas de que até então não passavam de formas da sua matéria. O edifício da tradição começa, então, a se desmoronar, e o «cauteloso inventor de probabilidades», versão anterior do nosso narrador quando ainda se acreditava demiurgo, se descobre, então, um «confiante cronista de incertezas»,6 democrata e libertário, eximindo-se de escolher por suas personagens, impedindo-se até de fingir que tem algum tipo de poder sobre elas.

Rui, assim, o "bosque de ficções" de que ele se achava proprietário; em compensação, ele vai poder conhecer, com maior veracidade (e, todavia, cada vez mais incertamente), os fatos que narra. Porque Paula, ascendendo em definitivo à vida dos comuns mortais, torna-se sua amiga, nesta altura da narrativa com 50 anos de idade, vivendo em Londres, vizinha de bairro. Assim, já de todo transformado em «perplexo autor desta história»,7 nosso Autor não tem mais como conduzir sozinho a narrativa. Seus personagens são, agora, suas testemunhas: é preciso consultá-los sobre suas versões, escrevendo, a partir de então, a restante história, a quatro, a tantas mãos, ouvindo deles parte do que ele próprio iria narrar e constatando que eles até lhe permitem, por um ato amoroso de respeito pela sua liberdade, que se escreva naquilo que são.

Daí que o nosso Autor, convide Paula para jantar em sua casa, a fim de trocar impressões a respeito do final do romance, sobretudo acerca das dúvidas que mantém sobre a filiação de Filipa. E daí que ele também devaneie, desejando que, um dia, a pequena Filipa possa tornar-se sua aluna no King's College, de maneira a conseguir, por si mesma, transformar em seus os autores que ele lhe emprestou, a fim de que possa, desse modo, melhor entender a sua própria vida.

O que era, portanto, para o autor tradicional, a construção de «monstrificações emblemáticas» e de simbolismos,8 a que se esforçava para dar corpo; o que era, enfim, o preparo de um "guisado", ao qual bastava acrescentar, segundo a receita, pitadas disto e daquilo para engrossar - se transmuta, no transcorrer deste romance, num espantoso banquete de cozinha comunitária, onde todos interferem. Resulta, pois, disso, uma história em que a tutela foi abolida, história da qual ninguém tem a posse, visto que a terra é de quem a trabalha e - já se viu! - esta narrativa é lavra de muitos, sem falar do verdadeiro acervo cultural de que se acerca, sem dele se apossar, para poder existir.

Assim, compartilhando dos movimentos da sua trama ficcional, Helder Macedo pôde alforriar suas personagens, deixando de exercer sobre elas aquela oficial proteção tão típica da prática romanesca tradicional, livrando-as, assim, da ameaça de se tornarem títeres, conferindo-lhes a liberdade de saberem da realidade através do próprio corpo, e de se desempenharem segundo o seu respectivo livre-arbítrio.

Há, portanto, neste romance, uma significativa mudança de política ficcional... Porque é pela via da emancipação e do amor que o nosso Autor perde a posse da narrativa, e isso em nome de valores que dizem respeito, portanto, à própria prática experimentada por ele dentro da narrativa.

Tendo, pois, partido da pedra, do templo, Helder Macedo se devota à invenção e à fundação de uma outra ordem, libertária e insurrecta, para a sua comunidade ficcional. De modo que o trajeto deste romance é, em qualquer das direções que ele se deixe ler, sempre aquele da passagem definitiva de Pedro a Paula.

Notas

1. Helder Macedo, Pedro e Paula, Lisboa, Editorial Presença, 1998.
2. Idem, p. 27.
3. Idem, p. 35.
4. Idem, p. 48.
5. Idem, p. 82.
6. Idem, p. 122.
7. Idem, p. 182.
8. Idem, p. 149.