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Depoimentos

 

HAQUIRA OSAKABE

No dia 3 de junho de 2008, as letras luso-brasileiras perderam o prof. Haquira Osakabe.

Filho de imigrantes japoneses, Osakabe nasceu em Ribeirão Preto (SP). Tendo cursado Letras na Universidade de São Paulo, teve uma carreira destacada na disciplina que, nos anos de 1970, era considerada a chave das Ciências Humanas, a Lingüística. Seu principal trabalho nesse campo foi o livro, hoje clássico, Argumentação e discurso político (1979).

Um dos fundadores do Instituto de Estudos da Linguagem, dedicou-se a seguir à literatura portuguesa, área na qual desenvolveu uma intensa atividade de pesquisa, de ensino e de orientação de trabalhos de pós-graduação, respondendo pela formação de dezenas de professores que hoje ensinam nas mais destacadas universidades do país.

Haquira Osakabe foi sobretudo um professor. Para quem conviveu com ele, talvez um dos traços mais fortes da sua personalidade tenha sido a generosidade intelectual, que se manifestava não só na contribuição crítica ao trabalho dos colegas e alunos, mas também na disponibilidade da sua bem constituída e atualizada biblioteca pessoal, sempre compartilhada com amigos e estudantes. E mesmo quem não o conheceu, mas trabalhou em áreas afins no Brasil nos últimos trinta anos, deve seguramente ter sido beneficiário de sua capacidade de agrupar pessoas em torno de relevantes projetos de ação cultural e, principalmente, de formar novos professores e pesquisadores.

Sua pesquisa literária se dividiu em vários tópicos de interesse: a Demanda, a literatura produzida no âmbito da cultura nikkey no Brasil, e, notadamente, Fernando Pessoa. Sobre esse autor publicou seu último livro: Fernando Pessoa, Resposta à Decadência (2002).

Paulo Franchetti (UNICAMP)

MARIA APARECIDA SANTILLI

Faleceu em São Paulo a professora Maria Aparecida de Campos Brando Santilli, professora titular de Literatura Portuguesa. Professora emérita da Universidade de São Paulo, foi uma das principais responsáveis pela renovação das pesquisas nessa área de investigação literária, quando se voltou para os estudos dos autores anti-salazaristas, nos anos de 1960 e 1970. Foi introdutora dos estudos universitários das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa no país, após a independência das nações africanas em que o português é língua oficial. Trabalhou ativamente, com um grupo de pesquisadores, na criação da área de pós-graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da USP, iniciativa igualmente pioneira. É autora de significativa obra crítica, aliando reconhecimento internacional à formação de mais de meia centena de docentes (Mestrado e Doutorado), que atuam em um grande número de universidades brasileiras.

Sua trajetória, de marcado sentido político-cultural, teve início com sua atuação em Assis (SP), na criação de uma unidade que viria a constituir um dos campi da UNESP. Integrou a resistência democrática, durante a ditadura militar, participando ativamente de frentes políticas pelo restabelecimento da democracia, na USP e fora dela. Após a reabertura dos partidos políticos, ligou-se sucessivamente a partidos que se propuseram a defender a bandeira da inclusão social, tendo exercido vários cargos. Desenvolveu, no município de Assis, ação decisiva no domínio da educação formal, contribuindo ainda para o desenvolvimento das comunidades, criando grupos de trabalho. Um desses projetos foi premiado pela UNESCO. Era atualmente membro do Conselho Estadual de Educação (São Paulo).

Na vida acadêmica, foi, em várias gestões, uma ativa chefe de departamento (Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas), diretora do Centro de Estudos Portugueses e membro da Congregação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Organizou congressos nacionais e internacionais de grande relevância. Durante anos, exerceu a função de assessora do Ministério da Educação para assuntos relativos às questões de língua, literatura e cultura dos países de língua portuguesa. Fez pós-doutorado em universidades de Portugal, EUA e Angola. Entre as instituições estrangeiras, onde ministrou cursos relativos ao Neo-Realismo português e a Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, podem ser citadas as universidades de Lisboa, Agostinho Neto, Yale, Columbia, Harvard e Boston.

A área de pós-graduação de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Universidade de São Paulo, publicou um significativo e alentado volume em sua homenagem, com participação de autores nacionais e estrangeiros, cujo título aponta para o principal sentido de sua trajetória acadêmica: Abrindo Caminhos (2002). Entre os livros que publicou, podem ser destacados: Júlio Dinis, romancista social (1979); Arte e Representação da Realidade no Romance Português contemporâneo (1979); Entre Linhas: desvendando textos portugueses (1984); Estórias Africanas (1985); Africanidade (1985); Apresentação da Poesia Barroca Portuguesa (co-autoria com Segismundo Spina, 1987); e Paralelas e Tangentes: literaturas de língua portuguesa (2003). Co-organizou recentemente uma série de livros com o título Literaturas de língua portuguesa. Marcos e marcas (2008), premiada pela Secretaria de Estado da Cultura.

Personalidade agregadora e de grande mérito acadêmico, Maria Aparecida Santilli continuará viva nos projetos educacionais de marcado sentido social que concretizou. E, na pesquisa e ensino das literaturas de língua portuguesa, pelos direcionamentos que soube empreender, pelas pesquisas e livros que escreveu, e pelos alunos que formou.

Benjamin Abdala Jr.