Anticastelhanismo e Sebastianismo
nas traduções espanholas do Frei Luís de Souza

("Esse texto também aparece na Revista Veredas N° 3")

Xosé Manuel Dasilva
Universidade de VIGO

Apesar da extrema qualidade artística que oferece a sua produção literária em géneros diversos, o Frei Luís de Sousa é paradoxalmente a única obra de Garrett traduzida na íntegra para espanhol e, ainda mais, através de quatro versões feitas em alturas diferentes ao longo de quase cem anos. Em primeiro lugar é preciso referir a tradução realizada por Emilio García de Olloqui, vinda à luz no ano 1859 em Lisboa com escassa distância cronológica a respeito da morte do escritor1. Uma outra adaptação do Frei Luís de Sousa será dada ao público na mesma época oitocentista, levada a efeito por Luis López Ballesteros e Manuel Paso sob o título Después del combate2, enquanto já no século actual aparecem uma terceira tradução, de responsabilidade anónima e sem datar, supostamente editada nos anos vinte3, e ainda a última versão espanhola até agora, publicada em 1942 e disposta por José Andrés Vázquez e Antonio Rodríguez de León4.

É interessante notar nas edições espanholas do Frei Luís de Sousa pertencentes ao século XX uma feição instrumental que se submete, em larga medida, ao propósito fulcral de tornar acessível para receptores forâneos uma obra original estrangeira. Porém as versões oitocentistas representam, pelo contrário, duas amostras claras de manipulação estética sujeitas ao desejo de adequar o texto garrettiano às normas do sistema literário espanhol no período correspondente5. Para lá desta análise não deixaria de ser útil, todavia, desvendar quer nas mesmas traduções para espanhol, quer no processo de recepção dessas traduções a hipótese de uma outra classe de manipulação, neste caso de pendor ideológico, no que diz ao presumível anticastelhanismo de alguns passos da obra. E é que se faz preciso levar em conta que a interpretação por parte de uma comunidade cultural dos textos literários, designadamente se estes forem estrangeiros, responde de modo habitual, além do seu significado isoladamente estético, a razões de natureza ideológica6. Quanto à recepção do Frei Luís de Sousa é importante trazer à baila, como ilustração desse conceito, a referência que um anónimo prefaciador introduz na tradução vinda a lume em 1942 acerca da oportunidade de apresentar a obra aos leitores espanhóis no contexto ditatorial coevo que dominava os dois países ibéricos:

Con el cuidado y la responsabilidad que cumple a sus prestigiosos nombres, han traducido respetuosamente este drama los ilustres escritores José Andrés Vázquez y Antonio Rodríguez de León, en homenaje a la gloriosa literatura escénica de la Nación hermana, y como servicio obligado en esta hora feliz de compenetración cordial de ambos pueblos peninsulares, reunidos para tejer juntos un nuevo destino superior y fecundo de la historia humana7.

Com independência deste episódio pontual, a verdade é que não raro se tem dito que o Frei Luís de Sousa apresenta, quase a constituir esta ideia um tópico irrefragável a despeito das variegadas interpretações que suscita a leitura da obra8, uma orientação ideológica de manifesto signo anticastelhano9. Como bem se sabe, o conflito patriótico de Manuel de Sousa que ocupa a parte final do acto primeiro aparece quase inteiramente esquecido, por não dizer eliminado, a partir do acto seguinte, mas nem por isso se desprezou a hipótese de salientar o valor político da cena admirável do propositado incêndio perante a ameaça da submissão aos espanhóis10. É inegável que nesta insistência hermenêutica teve de influir a censura teatral que se exerceu sobre a tentativa de encenar o Frei Luís de Sousa no Teatro do Salitre em 1847, já que o texto foi mutilado então para ser representado sem ofender a sensibilidade espanhola11.

Consoante essa mutilação da obra caberia suspeitar que nas traduções para espanhol, e designadamente na versão feita por García Olloqui em 1859 dada a sua proximidade temporal, se tivesse produzido qualquer intervenção com o alvo de banir ou modificar de caso pensado trechos originais. Não é perceptível, no entanto, o mínimo sinal de censura ideológica no concernente às afirmações mais nitidamente anticastelhanas do Frei Luís de Sousa que se contêm sobretudo ao longo do acto primeiro. Vejam-se, por exemplo, as palavras de Maria na cena III deste acto:

Meu pai, que é tão bom português, que não pode sofrer estes castelhanos, e que até, às vezes, dizem que é de mais o que ele faz e o que ele fala... em ouvindo duvidar da morte do meu querido rei D. Sebastião... ninguém tal há-de dizer, mas põe-se logo outro, muda de semblante, fica pensativo e carrancudo; parece que o vinha afrontar, se voltasse, o pobre do rei. Ó minha mãe, pois ele não é por D. Filipe; não é, não?12

Tais palavras aparecem reproduzidas assim na tradução:

Mi padre, que es tan buen portugués que no puede soportar á estos castellanos, y que algunas veces aseguran ser demasiado lo que dice y hace, en oyendo dudar de su muerte todo él se inmuta, queda pensativo, abrumado; parece que lo vendría a sonrojar el pobre rey si volviese. ¿Y en qué consiste?... ¿Pues él no está por D. Felipe: no está, no?13

O mesmo respeito em face do texto original é exequível adverti-lo na cena VII do mesmo acto, quando Manuel de Sousa anuncia encolerizado a intenção de os governadores, ao serviço dos espanhóis, se hospedarem no seu palácio:

Luís de Moura é um vilão ruim: faz como quem é. O arcebispo é... o que os outros querem que ele seja. Mas o conde de Sabugal, o conde de Santa Cruz, que deviam olhar por quem são, e que tomaram este incargo odioso... e vil, de oprimir os seus naturais em nome dum rei estrangeiro!... Oh, que gente, que fidalgos portugueses! Hei-de-lhes dar uma lição, a eles e a este escravo deste povo que os sofre, como não levam tiranos há muito tempo nesta terra14.

O que se transcreve com os seguintes termos na versão espanhola:

Luis de Moura es un villano ruin, y obra como tal: el arzobispo es... lo que los otros quieren que sea: mas el conde de Sabugal, el conde de Santa-Cruz, que debieran mirar por su nombre, y que tomaron este encargo odioso y vil de oprimir á sus naturales por cuenta de un rey extrangero... ¡Oh, qué gente! ¡qué hidalgos portugueses!... He de darles una lección, á ellos y á este esclavo pueblo que los sufre, como no la llevan tiranos hace mucho en esta tierra15.

Uma atitude tradutora idêntica ainda se pode ver nestas palavras de Telmo a Maria, na cena I do acto segundo, a louvar a acção heróica do pai que encerrou o acto anterior:

Vosso pai, D. Maria, é um português às direitas. Eu sempre o tive em boa conta; mas agora, depois que lhe vi fazer aquela acção, que o vi, com aquela alma de português velho, deitar as mãos às tochas e lançar ele mesmo o fogo à sua própria casa; queimar e destruir numa hora tanto de seu haver, tanta coisa de seu gosto, para dar un exemplo de liberdade, uma lição tremenda a estes nossos tiranos... Oh, minha querida filha, aquilo é um homem! A minha vida, que ele queira, é sua16.

Verifique-se a correspondência espanhola para este aceso patriotismo de Telmo:

Vuestro padre, Dª Maria, es un portugués á las derechas. Yo siempre lo tuve en buena estima. Pero desde que le vi ejecutar aquella accion, desde que le vi con aquella alma heroica echar mano á las antorchas y lanzar él mismo el fuego á su propia casa; quemar y destruir en una hora tanto de su haber, tanto objeto precioso y de su cariño, solo por dar un ejemplo de libertad, una leccion tremenda á esos nuestros tiranos... ¡oh! hija mia, aquello es ser hombre: mi vida que él quisiera seria suya17.

Como se pode corroborar nestas citações, não é factível descobrir qualquer intervenção de carácter político nesta primeira versão espanhola do Frei Luís de Sousa a fim de minguar o anticastelhananismo de certos passos, o que é um juízo que cumpriria ainda estender às sucessivas traduções da obra. No texto introdutório que aparece na versão dada à luz em 1942 inclusivamente se afirma, nessa mesma linha, a falta de inteligência patenteada nas mutilações que o texto tinha sofrido para ser posto em cena pelo Teatro do Salitre, um comentário que, ao fim e ao cabo, não faz mais do que considerar de leve transcendência as amostras de patriotismo português perante os inimigos castelhanos que se incluem no texto dramático:

Circunstancias de carácter político impidieron de un modo sistemático que durante algún tiempo se representase el hermoso drama en los teatros públicos. Fué preciso que mudase el ambiente, y que viniese de fuera la consagración, para que la magnífica obra entrase en el acervo literario nacional portugués. La docta Alemania abogó con su elogio por que los obstáculos se allanasen; obstáculos que en algún momento consistieron en coaccionar a los admiradores del teatro del Salitre, que se proponía dar a conocer al gran público la insigne producción de Almeida Garrett. La autorización se consiguió al fin, pero mediante tremendos cortes ineptos. La Censura dramática, ejercida por Andrade, secretario del Marqués de la Frontera, se justificó con unas supuestas complicaciones diplomáticas, que podrían sobrevenir con España, por desarrollarse la acción del drama durante el reinado de Felipe II en Portugal, y ser el protagonista don Manuel de Sousa, fiel amante de la restauración portuguesa18.

Conquanto não se percebam intercessões censórias levadas a efeito pelos tradutores das versões espanholas do Frei Luís de Sousa é possível apreciar, todavia, a mediação de outras estratégias mais subtis para domar, por assim dizer, o espírito anticastelhano de alguns diálogos do texto original. Entre essas estratégias deve-se frisar de modo muito especial, em primeiro termo, a indicação tendenciosa de fontes realizada em Espanha para a obra portuguesa. Como se sabe, o próprio Garrett tinha apontado para a génese do Frei Luís de Sousa a influência de uma "comédia famosa" de autor espanhol, identificada logo presumivelmente como A secreto agravio, secreta venganza, de Calderón de la Barca19. Esta obra, que ele viu representada por uma companhia ambulante na Póvoa de Varzim, inclui uma cena em que o cavaleiro português D. Lope de Almeida incendia o seu palácio em Lisboa. Ora bem, é curioso advertir nos escritos paratextuais de algumas versões espanholas do Frei Luís de Sousa uma insistência particular no valor dessa presença calderoniana20. Não seria impossível conjecturar, assim, que o facto de ter sido salientada neste país a influência do dramaturgo espanhol justamente sobre o episódio do incêndio que destrói o palácio de Manuel de Sousa, sem dúvida o de maior fôlego anticastelhano da obra, respondesse ao intuito de minguar a sua força ideológica. Tal conjectura ainda se torna mais sólida se se leva em conta uma outra fonte espanhola, e agora sem se cimentar em qualquer testemunho mais ou menos fidedigno como acontecia no caso anterior, para este episódio concreto de Frei Luís de Sousa. Está-se a fazer referência à suposta inspiração de Garrett no romance histórico Un castellano leal, do Duque de Rivas, lançada primigeniamente, já no mesmo período oitocentista, pelo polígrafo espanhol Romero Ortiz: «Esta escena, que es la de más efecto que tiene el drama, carece por completo de originalidad. Está tomada del bello romance que, con el título de Un castellano leal, dió á luz el Duque de Rivas»21.

Contudo não apenas no campo das influências é evidente, através do seu processo de recepção em Espanha, uma certa vontade de refrear o tom anticastelhano de alguns fragmentos do Frei Luís de Sousa22. Uma outra estratégia para isso, não menos importante, consistiu em outorgar à personagem de Manuel de Sousa um fundo predominantemente romântico mais do que ideológico, de acordo com o retrato dele feito por Cervantes na obra Los trabajos de Persiles y Sigismunda (1617), onde se narra a sua infeliz história amorosa e se insere o seguinte epitáfio:

Aquí yace viva la memoria
del ya muerto
Manuel de Sousa Coutiño,
caballero portugués,
que a no ser portugués, aun fuera vivo.
No murió a las manos
de ningún castellano,
sino a las del amor, que todo lo puede.
Procura saber su vida,
y envidiarás su muerte,
pasajero.23

Destarte a presença de Manuel de Sousa na própria tradição literária espanhola teria contribuído, em alguma medida, para diminuir o relevo anticastelhano desta personagem no Frei Luís de Sousa. De resto o romantismo do seu perfil, bem patente nos traços que o delineiam, aliás, na qualidade de protagonista na adaptação espanhola intitulada Después del combate, ligar-se-ia à principal linha de leitura que o sebastianismo da obra de Garrett merece em Espanha durante a época oitocentista24. Com efeito, é interessante dar atenção ao drama espanhol Traidor, inconfeso y mártir, de José Zorrilla, estreado em 184925, onde a inspiração sebastianista é utilizada para apresentar, mais do que qualquer significado político referido à monarquia dos Filipes, um fio argumental de natureza romântica à volta do protagonista, Gabriel de Espinosa, usurpador da verdadeira identidade do desaparecido rei português. É muito plausível que esta interpretação do mito sebastianista, mormente estética e alheia a orientações ideológicas anticastelhanas26, estabelecesse no contexto espanhol da altura um código de leitura aceitável para os excertos mais problemáticos da obra de Garrett.

Conclui-se, portanto, que o Frei Luís de Sousa circulou de forma muito fluente no âmbito espanhol através de numerosas traduções, mesmo por cima de prováveis reticências que os seus mais vivos conteúdos patrióticos pudessem suscitar entre os seus leitores vizinhos. Nem por isso se pode esquecer, porém, a construção de um discurso crítico destinado a restringir os seus passos de alento anticastelhano, sobretudo por meio da identificação parcial de fontes espanholas para a obra portuguesa. Da mesma perspectiva seria possível explicar, enfim, a linha de leitura que a tradição literária receptora fornece sobre a significação do ingrediente sebastianista que faz parte do texto original.

Notas

1. Almeida Garrett, Fray Luis de Sousa. Drama histórico en tres actos, Lisboa, Imprenta Nacional, 1859. Trad.: Emilio García de Olloqui.
2. Almeida Garrett, Después del combate (Drama en tres actos y un cuadro, en verso, escrito sobre un pensamiento de Almeida Garrett), Madrid, Florencio Fiscowich Editor, 1890. Trads.: Luis López-Ballesteros e Manuel Paso.
3. Almeida Garrett, Fray Luis de Sousa, Madrid - Buenos Aires, Compañía Ibero-Americana de Publicaciones, s.d. Prólogo de Álvaro de las Casas.
4. Almeida Garrett, Fray Luis de Sousa, Cádiz, Escélicer, 1942. Trads.: José Andrés Vázquez e Antonio Rodríguez de León. Existe constância de uma outra tradução mesmo hoje inédita, de Pedro Blanco Suárez, que permitiria falar na verdade da existência de cinco versões espanholas do Frei Luís de Sousa. Cfr. Henrique de Campos Ferreira Lima, "Garrett em Espanha", Boletín de la Universidad de Santiago de Compostela IX, 30 (1940) 22-23.
5. Vid. Xosé Manuel Dasilva, "Sobre a recepção do Frei Luís de Sousa em Espanha", Actas do Congresso Internacional Garrett: um romântico, um moderno (Coimbra, 3-5 de Fevereiro de 1999). No prelo.
6. Vid. Daniel-Henri Pageaux, La littérature générale et comparée, Paris, Armand Colin Éditeur, 1994, p. 50-53.
7. Sem Assinatura, "El autor y su obra", Fray Luis de Sousa, Cádiz, Escélicer, 1942, p. 10.
8. «Aglutinados em torno de um núcleo central (...) vários temas se interligam no drama, polarizados em cada uma das suas personagens principais. Daí a pluralidade de leituras que ele consente: para uns, o Frei Luís de Sousa será um drama histórico ou político, para outros um drama psicológico de consciências, ou mesmo psicanalítico, para outros ainda um drama existencial, consoante o ângulo de visão em que o intérprete se coloque» (Luiz Francisco Rebello, O teatro romântico (1838-1869), Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1980, p. 46-47).
9. Por exemplo, eis a interpretação ultra-nacionalista de Crabée Rocha: «Não entra na peça para haver mais movimento com a fuga precipitada dos protagonistas, nem para proporcionar à plateia uma coisa espectacular, no género das trovoadas, relâmpagos, meteoros, e outros fenómenos da natureza tão queridos dos ultra-românticos. Tem um outro papel. Ilumina a alma, ao mesmo tempo que a casa, de D. Manuel. Um gesto dêstes dá-nos garantias sôbre o carácter e a moralidade do fidalgo, e prova, desde logo, que não pode haver impureza na maneira como agiu em relação ao seu casamento; prepara a digna e estóica renúncia aos seus afectos depois da renúncia aos seus bens; motiva ainda a presença das personagens na casa de D. João de Portugal, e permite os efeitos dramáticos que daqui se tiraram. Enfim, era para Garrett uma ocasião maravilhosa de dar sem perigo uma lição aos espanhóis, no seu desejo continuo e coerente com o seu nacionalismo de abrandar a soberba castelhana» (Andrée Crabée Rocha, O Teatro de Garrett, Coimbra, 1944, p. 160). A citada autora ainda acrescenta em rodapé: «Compreende-se que Garrett nunca tomasse posse do seu cargo de embaixador de S.M.F. no reino vizinho!». É conveniente trazer à colação ainda as notas políticas que Teófilo Braga tinha destacado já no Frei Luís de Sousa. A obra possuía, em seu entender, a função de excitar o espírito revolucionário dos portugueses no momento em que se estavam a perder os frutos da revolução de 1836. Vid. Teófilo Braga, Garrett e os Dramas Românticos, Porto, Livraria Chardron de Lello & Irmãos, 1905, p. 352. Por outro lado, é conhecido que o "espantalho" ibérico não raro foi utilizado em Portugal ao longo do século XIX para estimular o patriotismo lusitano. Vid. Pilar Vázquez Cuesta, "O espantalho ibérico como arma política no Portugal do século XIX", Estética do Romantismo em Portugal (Primeiro Colóquio 1970), Lisboa, Grémio Literário, s.d, p. 39-43.
10. É adequado transcrever, nesse sentido, o seguinte juízo de Kayser: «O incêndio da própria casa quer ser um desafio aos governadores. Porém isto não prossegue, nem com uma só palavra: fica sendo um motivo cego» (Wolfang Kayser, Análise e Interpretação da Obra Literária, Coimbra, Arménio Amado Editora, 1985, 7ª ed., p. 419).
11. Vid. Braga, op. cit., p. 352-354. Corresponderia a Rebelo da Silva denunciar, segundo Braga, essa actuação censória através de um artigo sob o título A censura moral do theatro, publicado na Revista Universal Lisbonense, em que figura este gesto de afervorada indignação: «Para suspender, e depois mutilar Fr. Luiz de Sousa, argumentou-se com Hispanha! O rasgo nobre de um portuguez, não pode nunca offender um castelhano».
12. Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Lisboa, Seara Nova, 1969, 8ª ed., p. 21. Edição de Manuel Rodrigues Lapa.
13. Almeida Garrett, op. cit., p. 18.
14. Almeida Garrett, op. cit., p. 28.
15. Almeida Garrett, op. cit., p. 25.
16. Almeida Garrett, op. cit., p. 41.
17. Almeida Garrett, op. cit., p. 34-35. O cursivo para o sintagma original «português velho», que é nosso, põe de relevo a única divergência importante que se regista no trecho traduzido.
18. Sem Assinatura, op. cit., p. 9. Um comentador ulterior, também espanhol, até indicou que «es adjetivo que en la obra de Garrett se profieran algunas expresiones anticastellanas» (O. A., "Apunte sobre un tema cervantino y romántico: el Frei Luís de Sousa", La Estafeta Literaria 444-445 (1970) 34) e que «si alguna obra portuguesa es representable en Castilla, el Frei Luís de Sousa lo es» (ibid., p. 35).
19. Vid. Henrique de Campos Ferreira Lima, Inventário do Espólio Literário de Garrett, Coimbra, Publicações da Biblioteca Geral da Universidade, 1948, p. 4-5.
20. Cfr. Álvaro de las Casas, "Prólogo", em Almeida Garrett, Fray Luis de Sousa, Madrid - Buenos Aires, Compañía Ibero-Americana de Publicaciones, s.d., p. 5-6; Sem Assinatura, op. cit., p. 7-8. Não menos curioso é observar, em troca, a obstinação crítica portuguesa dirigida a tirar importância ao peso de Calderón de la Barca na origem do Frei Luís de Sousa, inclusivamente com a argumentação de o testemunho do próprio Garrett ser apenas um eco erudito de Goethe: «Uma representação de cómicos ambulantes, na Póvoa de Varzim, vista há vinte anos, a servir de fonte de Frei Luís de Sousa! Quem é que se não lembra logo de Goethe, a partir também de uma representação de bonifates para o seu Fausto? O nosso poeta sabia arranjar paralelos! (...) Ora, para quem tinha o gôsto da pompa e a si próprio se chamava sumidade da nação, não era tolice nenhuma desejar, um pouco infantilmente, vestir o seu Frei Luís de Sousa -a obra da sua vida- da tradição majestosa que cobria o grande drama alemão» (Rocha, op. cit., p. 147).
21. Antonio Romero Ortiz, La literatura portuguesa en el siglo XIX (Estudio literario), Madrid, Tipografía de Gregorio Estrada, 1869, p. 195-196. É uma presunção mais tarde contestada por Teófilo Braga. Cfr. Braga, op. cit., p. 323. Um outro autor português, Joaquim de Araujo, mesmo assinala por seu turno que foi o Duque de Rivas quem na verdade recebeu a inspiração de Garrett, segundo este tinha confessado numa nota do seu Romanceiro: «O contrário é que se deu; o duque de Rivas é que foi influenciado pela obra do nosso grande escriptor, de quem tomou palavras, em epigraphe, no seu primeiro trabalho El Moro Expósito. A acção de Garrett reflectiu-se na renovação da literatura hespanhola, como já dominara na brasileira» (Joaquim de Araujo, O Fr. Luiz de Souza, de Garrett, Lisboa, 1905; apud Lima, op. cit., p. 21).
22. Faz-se necessário consignar, por certo, a circunstância de um estudioso espanhol assinalar nos últimos anos a seguinte tese a respeito das influências espanholas na obra garrettiana: «Finalmente, como resultado del análisis realizado a través del presente artículo, llego a la conclusión de que en el estudio de las fuentes de Frei Luís de Sousa puede, sin detrimento alguno, prescindirse de las obras españolas que en tal concepto venían citándose tradicionalmente» (Fernando González Ollé, "Frei Luis de Sousa y la literatura española", Revista de Literatura IV, 8 (1953) 423). Vid. ainda Fernando González Ollé, "Sobre el proceso de la creación dramática y una obra de Almeida Garrett", Estudios dedicados a Menéndez Pidal, Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Científicas - Patronato Marcelino Menéndez y Pelayo, 1957, t. VII, vol. 1, p. 309-329.
23. Miguel de Cervantes, Los trabajos de Persiles y Sigismunda, Madrid, Editorial Castalia, 1978, p. 281. Edição de Juan Bautista Avalle-Arce. Na obra cervantina a história de Manuel de Sousa desenvolve-se no capítulo dez, intitulado precisamente "De lo que contó el enamorado portugués", do "Libro Primero" e, ainda logo, no capítulo primeiro do "Libro Tercero".
24. Sobre a presença do sebastianismo no texto garrettiano, vid. especialmente Erilde Melillo Realli, "Garrett e i miti del sebastianismo", Annali del Instituto Universitario Orientale XII (1970) 127-146.
25. José Zorrilla, Traidor, inconfeso y mártir, Salamanca, Anaya, 1970. Edição de Ricardo Senabre.
26. Cfr. Tom Lewis, "Zorrilla and 1848: Contradictions of Historico-Nationalist Romanticism in Traidor, inconfeso y mártir", Hispania 81 (1998) 818-829.