Entre o real e o imaginado:
o Oriente na narrativa colonial portuguesa

("Esse texto também aparece na Revista Veredas N° 3")

David Brookshaw
Universidade de Bristol

O estudo pioneiro de Edward Said sobre a visão do Oriente na literatura e no pensamento ocidentais ignora quase completamente a existência de uma tradição orientalista na literatura portuguesa, e se o ilustre estudioso palestiniano menciona a presença portuguesa no Oriente, limita-se ao período hegemónico de Portugal, ou seja o século 16. Said, é claro, dava especial atenção ao Oriente Médio, e privilegiava as literaturas inglesa e francesa. Porém, a literatura portuguesa de fins do século 19/princípio deste século nos oferece uma visão do Oriente sui generis. Esta comunicação verterá sobre dois romances que se poderiam qualificar como coloniais, e que tratam das relações luso-chinesas no remoto e muitas vezes esquecido território de Macau: Caminho do Oriente, de Jaime do Inso, e O Caso da Rua Volong de Emílio de San Bruno.

Quando falamos da experiência colonial portuguesa no período moderno, referimo-nos, como é óbvio, principalmente à África. O impulso para a expansão portugesa em África começou em meados do século 19, na sequência da abolição do comércio de escravos, e ganhou maior ímpeto depois do Congresso de Berlim em 1885. As aspirações coloniais portuguesas na África austral foram frustradas pelo Ultimato britânico, mas este acontecimento induziu uma onda de nacionalismo que, entre outras coisas, iria pôr termo à monarquia e iniciar uma política colonial republicana muito mais robusta do que a do antigo regime.

Quando os portugueses comemoraram o quarto centenário da viagem de Vasco da Gama, as possessões portuguesas na Ásia se limitavam a uma série de enclaves na costa ocidental do subcontinente indiano, meras incrustações na Índia britânica, Macau, cujo declínio fora acelerado mas cuja sobrevivência era garantida pela proximidade do entreposto britânico de Hong Kong, e a metade oriental da ilha de Timor.

Já em 1885, a viabilidade dos territórios do Estado da Índia foi assunto de debates no parlamento português. Houve até propostas para vender Macau a uma outra potência européia, sendo o raciocínio para isso a necessidade de canalizar as energias e os recursos nacionais ao império português da África, e muito especialmente aos territórios da África ocidental. Os deputados que representavam os territórios da Ásia respondiam que a Ásia portuguesa não apresentava nenhum deficit orçamental, e que no caso de Macau, este território não poderia ser vendido sem o consentimento da China, facto confirmado no tratado de 1887 entre os dois países. Por outro lado, se houve razões práticas para que o império da Ásia não fosse alienado, existia fortes laços sentimentais com territórios vistos como relíquias de uma antiga grandeza. Pouco a pouco, surgiu o que se poderia chamar um lobby oriental em Portugal. Entre os seus expoentes de maior prestígio político foi Bernardo Pinheiro Correia de Melo, melhor conhecido pelo seu título aristocrático, Conde de Arnoso, companheiro e correspondente de Eça de Queirós, e membro da delegação portuguesa a Pequim em 1887. No relato da sua viagem à China, Arnoso declarou que o país prometia muito mais do que a África, desde o ponto de vista comercial, e que Portugal devia aproveitar os seus laços históricos na região para concorrer com os seus rivais, transformando Macau num centro industrial, e reformando a administração do território para que pudesse competir com os outros portos internacionais da China: «Logo que tal suceder a China tornar-se-ha o mercado de todo o mundo, e nós, com a nossa colonia de Timor visinha da China e com Moçambique, onde já chegam colonias chinezas e cujas pautas muitos pontos de semelhança teem com as da China, estamos evidentemente em circunstancias muito mais favoraveis que as demais nações. Macau deveria tornar-se um forte centro industrial, para o que seria necessario modificar toda a sua administração de maneira a ficar ao mesmo pé dos outros portos da China» (Arnoso, 429). Montalto de Jesus foi outro membro deste lobby oriental, que se manifestava a favor de um maior desempenho por parte de Portugal nas oportunidades comerciais que a China parecia oferecer. Numa conferência dada à Sociedade Geográfica de Lisboa em 1911, lamentou a apatia de Portugal em relação a Macau, atribuíndo esta falta de iniciativa ao governo do antigo regime monárquico.: «Mas infelizmente um dos maiores males do paiz é a falta de inciativa e cooperação nacional, o tétrico pessimismo dos tempos idos. O regime monárquico nao só arruinou o país: esmoreceu na alma nacional a confiança, o arrojo indispensavel á vida comercial, deixando o povo quasi morto em marasmo e obscurantismo econòmico...» (Montalto de Jesus, 10). A solução proposta por Montalto para a dinamização comercial de Macau incluía o estabelecimento de uma ligação marítima directa com Portugal, o que facilitaria a colocação de produtos portugueses como a cortiça e o vinho no mercado chinês. Nao é coincidência que foram estas precisamente as soluções propostas por Jaime do Inso e Emílio de San Bruno nas suas obras literárias.

Jaime do Inso foi um oficial da marinha que serviu em Macau e participou na pacificação de Timor em 1912. Era membro da geração de orientalistas portugueses que integrava nomes como Wenceslau de Moraes, com quem manteve uma correspondência, Alberto Osório de Castro e Camilo Pessanha, e escreveu vários livros e opúsculos sobre a China e Macau. No entanto, O Caminho do Oriente (1932) é a sua única obra de ficção. Trata-se de um romance que, de certa maneira, revela a influência do clássico pós-Ultimato do Eca, A Ilustre Casa de Ramires. Porém, nao é um membro da aristocracia rural que se salva da bancarrota, senão uma empresa familiar de importação e exportação, que sofreu com as fluctuações cambiais da década de 90 e consequentes quedas no preço da cortiça no mercado europeu. De resto, O Caminho do Oriente é, no fundo, um romance colonial, escrito por um "Old China Hand" que se tornou membro do lobby asiático em Portugal.

Os dois protagonistas principais, Rodolfo e Frazão, são amigos de infância, ligados por uma empresa comercial familiar. Irão representar duas maneiras distintas de focalizar o Oriente, uma das quais idealista, sonhadora, atraída por um sentimento de exotismo, a outra, sólida, sensata e materialista. Rodolfo e Frazão encarnam qualidades necessárias para a regeneração de Portugal e da sua vocação imperialista: «Rodolfo Moreira, o mais novo, era um tipo insinuante e fino, apurado no trato e no trajar, mordendo nervosamente os cigarros que acendia, uns após outros, sem os queimar completamente./ Frazão Antunes, o mais velho, um tanto prosaico e calmo, revelava-se, a um simples exame, uma antítese perfeita do seu amigo, a não ser nas qualidades de carácter em que ambos irmanavam no mesmo timbre de finura e honradez» (Inso, 18). Re-invenção, em outras circunstâncias, de um D. Quixote e Sancho (com algumas caraterísticas do Fernandes e Jacinto do Eça, ou Sherlock Holmes e Dr Watson do Conan Doyle), os dois amigos partem para Macau em busca de novos mercados para a firma de Moreira e Antunes Lda.

Rodolfo vem a conhecer a sua Dulcinéia a bordo, na viagem para o Oriente: Tininha é uma moça de origem étnica incerta. Portuguesa de Macau, "moça de cabelos loiros" de "olhos infantis", a descrição sugere uma heroína surgida diretamente das convenções românticas européias. Por outro lado, os olhos, em vez de estereotipicamente azuis, são «dum verde jade» (Inso, 19), que poderia indicar uma ascendência mais complexa, embora remota. Muito menos complicada é a parceira do Frazão, Pepita, filipina casada, de regresso a Hong Kong, mas o contraste serve para realçar as caraterísticas morais dos dois protagonistas, o romântico Rodolfo, o prosaico Frazão, qualidades necessárias para a empresa colonial. Na realidade, o autor indica que o prototipo ideal seria um compromisso entre os dois, tal como o modelo cervantino: Rodolfo, no fim, é salvado de um excesso de romantismo, enquanto o Frazão, materialista provinciano, adquire um gosto por roupas elegantes e outros acessórios de uma burguesia cosmopolita.

Um dos traços caraterísticos da literatura colonial era que os seus heróis tinham que conciliar o seu desejo de aventura - o que implicava também um certo fascínio pela nova realidade cultural em que se encontravam - e a sua capacidade de preservar a sua própria identidade cultural, a sua autoridade como representantes do poder imperial. Daí o conceito da alteridade como sendo, no fundo, perigosa. Por isso, tinha que ser vencida, para depois ser banalizada e rendida inútil. Senão, a vítima cairia em uma espécie de realidade de pesadelo, associada com a escuridão, a anarquia, um passado pre-lógico. A diagnóstica da condição feita pelo autor é de uma luta entre a saúde e a doença, sendo a saúde a cultura européia, a doença, a asiática: «Se a Europa vence, e êste caso é mais raro, a Ásia fica reduzida a um farrapo grotesco de cujo contacto depressa nos saturamos; e se a Ásia é vencedora, como geralmente sucede, aqueles <<dessous>> tão chocantes e desagradáveis, sofrem uma extraordinária transformação e passam como que a integrar-se na sublime visão da China, numa espécie de sonho-realidade, factor indispensável da existência./ O tempo desta luta é variável, umas vezes, decorre lento, outras, o golpe decisivo surge rápido, fatal e, se a Europa é vencida, esvaie-se a pobre, quasi perdida e inútil, nas sombras de um remoto passado...» (Inso, 140).

Esta doença vem pouco a pouco a dominar Rodolfo. Começa com o seu fascínio e a sua curiosidade iniciais pelas sensações do Oriente. No início, consegue rejeitar essas influências: «A impressão era forte, e Rodolfo sentiu, num mixto de atracção e de repulsa, como que uma sensação de domínio da China, que instintivamente repeliu...» (Inso, 128). Mais tarde, começa a ceder: «E Rodolfo abandonou-se ao pesadelo feito sonho de tentações a sorrir, entregue a volúpia dolorosa do Oriente, que enebria e esquece, e mata sem se sentir! Começou entao a perceber, confusa e vagamente, que tinha dois amores:/ Um, que era uma mulher, outro, que era a China!» (Inso, 231).

O fascínio de Rodolfo pelo Oriente é simbolizado pelo seu abondono da noiva, Tininha, em favor de A-Mi, moça chinesa vista na ocasião de uma visita a um templo budista. Ela personifica a sedução do Oriente, e o efeito dela sobre Rodolfo representa o triúnfo da intuição e do mistério sobre a razão e a lógica. Passado algum tempo depois de se instalar com A-Mi, Rodolfo recebe uma carta da mãe, se queixando de que parece ter perdido a confiança do filho: é a Mãe Pátria que o chama, e para a qual, em termos coloniais e imperiais, a lealdade era sagrada. Em termos dramáticos, a resolução do problema de Rodolfo começa com a morte de A-Mi no meio de um tufão, solução que nos faz lembrar, se bem que de maneira diferente, a morte de Iracema no romance brasileiro (ou de Moema em Caramuru), e parece representar uma etapa importante na redenção do herói, ao mesmo tempo que castiga a mulher indígena por tê-lo seduzido.

Rodolfo tem primeiro que ser curado da doença do Oriente, que em termos concretos, se manifesta através da maldição da criada da A-Mi, que responsabiliza Rodolfo pela morte da sua ama. Rezar para o Deus cristão nao é suficiente, já que o antidoto da doença tem que ser procurado dentro da cultura que a produziu. É a criada da própria Tininha que recorre à ajuda de um curandeiro. Novamente de boa saúde, Rodolfo se casa com Tininha e se estabelece em Macau enquanto Frazao regressa a Portugal para gerar a empresa familiar, renascida graças aos novos mercados encontrados pelos dois amigos (irmãos) coloniais.

Emílio de San Bruno é o pseudónimo literário de Filipe Emílio de Paiva, outro oficial da marinha, contemporâneo de Jaime do Inso, que esteve alguns anos em Macau no início deste século, além de servir em outros territórios do ultramar. O Caso da Rua Volong (1928) foi um de três romances escritos para apoiar o esforço colonial português, sendo os outros A Magra da Ilha de Luanda (1927), cuja acção decorre em Angola, e Zambeziana (1929), que tem como palco Moçambique. Nos três romances, o protagonista principal é o mesmo: Paulo, jovem oficial da marinha. No entanto, ele é mais observador das acções dos outros do que participante no drama da história. É o prototipo do bom colonial já que não se rende perante atraçoes que o poderiam comprometer nas suas funções.

Tal como aconteceu com Jaime do Inso, o enredo dos romances de San Bruno deve muito à tradição romântica, mas o desfecho da história mostra as consequências de deixar as emoções dominar o intelecto. Em O Caso da Rua Volong, é a paixão do Conde de Palhais pela enigmática Miss Grace, portuguesa mascarada de americana, vítima de uma indiscreção do próprio Conde em Lisboa, e que o seguiu ao Oriente com a intenção de recuperar o seu amor. Poderíamos estar em plena comédia shakesperiana, se não fosse que o romance acaba numa tragédia melodramática. Tal como o herói de Jaime do Inso, Miss Grace se rende às atrações do Oriente na pessoa de Mansilla, elegante cavalheiro hispano-americano nos serões da alta sociedade de Macau, mas que na realidade é nacionalista filipino, e contrabandista de armas sem escrúpulos. Mansilla encarna as forças anárquicas e exóticas que atraem e destroem: «Sorria-se para mim, cravando no meu olhar atónito, o seu olhar fascinador, donde sentia, mau grado meu, irradiar uma força magnética poderosíssima. Como estava belo!» (Bruno, 380-1). Tal como no romance de Jaime do Inso, o processo é gradual, descrito como uma luta entre a atração física e emocional, estado depravado, por um lado, e uma consciência do dever nacional por outro: «Não podia continuar a deixar-se prender daquele olhar, que parecia um estilete que a perfurava numa morbida embriaguez, dando-lhe a sensação nitida da aventura do amor... E uma esperança tremeluziu no fundo negro da sua alma cativa, e veio refrescar-lhe como um bálsamo brando, a ardência dolorosa dos seus pensamentos. Era portuguesa de alma forte! Não devia deixar-se estar em obediência a ninguém» (Bruno, 388).

Tal como na literatura do século 16, em que a irresponsabilidade moral podia levar a consequências negativas políticas, as acções destes dois personagens rebaixam a posição do poder colonizador perante os seus rivais. A atração de Miss Grace pelo nacionalista filipino enfraquece a hegemonia ibérica na região, facilitando a entrada em cena de outras potências como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Ao desnacionalizar-se para reaver seu amor, torna-se politicamente perigosa. O Conde, ao apaixonar-se por uma estrangeira (embora estrangeira falsa), também se torna vulnerável a forças anti-portuguesas - como o jovem herói de Jaime do Inso, esquece a mãe-pátria, o que o conduz a outras tentações perigosas do Oriente: o jogo e o ópio. Na realidade, em O Caso da Rua Volong, como aliás nos outros romances de Emílio de San Bruno, um dos temas constantes é o da segurança imperial. A vulnerabilidade do império português em relação à influência estrangeira ou às ambições territoriais da Grã-Bretanha, refletem as preocupações de muitos intelectuais portugueses do período pós-Ultimato (o caso de escritores como Jaime do Inso e Emílio de San Bruno). Nos romances africanos deste último, a soberania portuguesa é ameaçada pelas companhias concessionárias inglesas no Vale do Zambeze ou por aspirações coloniais, também inglesas, na área do Congo. Em O Caso da Rua Volong, a rivalidade britânica se manifesta de outra forma, em termos linguísticos e de influência política sobre o imperador chinês.

A decadência de Macau no fim do século 19, reflete a decadência da China dos últimos anos do regime monárquico. Uma é o espelho da outra - nas palavras de um dos personagens: «Os portugueses e os chineses, têm a mesma moral. Viajei na América, conheço o sistema inglês dos Straits e vi que no carácter e na política os chineses e os portugueses pouco diferiam...» (Bruno, 351). Na grande luta entre a Europa e a Ásia que tanto preocupava Jaime do Inso, A China está ganhando em Macau, uma China arcaica e anárquica, victoriosa no enclave porque permitida pela letargia - a decadência - de Portugal: «Em baixo a procissão chinesa continuava a desfilar com o mesmo pitoresco exotismo de há mil anos./ Era bem a China impenetrável, retrógrada, rotineira, insubmissa à febril civilização ocidental, mas já minada no antigo respeito à lei pela anarquia latente entre os mandarins do Império./ - Como a arcaica civilização chinesa se achava bem dentro da ronceira e velha colónia de Macau!» (Bruno, 142).

Como colonialista, e autor de um romance que ia concorrer para o prémio da Agência Geral das Colónias, San Bruno nao podia acabar num tom tão pessimista. Como o seu contemporâneo, Jaime do Inso, cujo livro também ganhou um prémio da Agência, concluiu positivamente o seu romance, recorrendo a uma técnica já conhecida dos românticos: o narrador se distancia do período em que se desenrolou a acção da história, ao informar os seus leitores que o manuscrito tinha sido achado num velho baú. Refere, portanto, a uma situação que já não existia: «Hoje, Macau, já difere, em civilizado confôrto, e em adequadas obras de fomento, do daquele tempo, em que o autor dos folhetos coloniais por lá andou» (Bruno, 413-4). San Bruno escrevia quando a ditadura de Salazar estava-se consolidando, criando as condições para a imposição da lei orgânica que ia entrar em vigor no império a partir da década de 30.

O comentário de Edward Said de que os escritores ocidentais focalizam o Oriente dentro de um enquadramento teórico regido pelo determinismo biologico, e a partir de uma postura essencialmente masculina, acaba por ser, talvez inevitavelmente, ilustrado pelas obras destes dois autores portugueses do princípio do século. Se, por um lado, o Oriente era associado com o exotismo, o mundo da imaginação, era precisamente por isso, território e símbolo da alteridade. As mulheres, assim como honens feminizados (isto é, aqueles em que o sentimento e o instinto predominavam sobre as suas faculdades intelectuais), eram engolidos e destruídos pelo Outro. No seu retrato do oriental, tanto Inso como San Bruno, manifestavam a paranoia do colono masculino europeu, através das personagens feminina, como A-Mi, e masculina - Mansilla. Nos dois autores, mas muito especialmente em San Bruno, a alteridade mede-se em termos políticos, culturais e somáticos, e como já sugerido anteriormente, encarna-se na figura feminina mais do que na masculina. No romance Zambeziana, por exemplo, Dona Rosário, a mestiça de origem indiana e africana, com alguma longínqua ascendência portuguesa, chefe de um território semi-independente, representa o barbarismo mas também a sedução da velha África anterior ao Congresso de Berlim, e que, na ótica do autor, precisa de ser domada pelo colonialismo moderno: a morte de Dona Rosário no fim da história, assim como a do Sousa, oficial português seduzido por ela, representa o fim de uma época histórica (o período dos prazos e dos prazeiros) e o começo de outra (a de um colonialismo mais centralizador). Em A Magra da Ilha de Luanda, é a órfã, Antónia, devota de Nossa Senhora de Muxima, santa padroeira de Angola colonial, e cujos encantos Paulo, o mesmo intrépido oficial que aparece nos outros romances, resiste com dificuldade, que é vista como alicerce de uma futura população colonial, mas é significativo que Antónia é branca, destinada para ser mulher de um dos muitos brancos pobres que iriam desembarcar em Angola para construir o novo Portugal tropical. Por fim, em O Caso da Rua Volong, Maria José, macaense, católica, é outra possível parceira para um oficial português. Porém, aqui, San Bruno teve que proceder com cuidado: por um lado havia uma longa tradição de portugueses a casarem com filhas da terra. Por outro lado a legislação colonial, reiterada pelo regime salazarista (Decreto de 1941), discriminava contra o casamento de oficiais do império com mulheres não européias. Na prática, acontecia, e San Bruno o admitia, sendo o exemplo no romance, o capitão do porto de Macau, residente na colónia há mais de trinta anos e casado com uma macaense, mas a origem desta união se achava no mesmo processo de sedução quase clínica que fazia os portugueses abandonarem o seu papel de colonizador, e daí a sua Pátria, processo portanto, no fundo negativo e a ser evitado: «... ter-lhe-ia a nhonhita que o encantara dado a comer o doce de nymphea alfa, o lin chin dos indígenas, cujo fruto tem, segundo dizem, a virtude de fazer esquecer aos europeus a família e a Pátria, quando dela comem a dose calculada para o efeito?»(Bruno, 75). Quanto a Maria José, meio caminho entre as tentações da angolana branca e a anárquica força sedutora de Dona Rosário, afigura-se como um ser essencialmente solitário, uma mulher que se embranquece com talcos sem esperança de achar marido entre os portugueses.

Para concluir, quando recordamos a tradição de mistura racial que, segundo muitos pensadores, foi característica do colonialismo português, é interessante nos lembrarmos da mensagem anti-miscigenista da sua literatura colonial, se tomarmos estes dois romances "orientais" ou "orientalistas" como típicos do gênero. Tomando a sua imagística da tradição romântica, e talvez de alguma maneira o romantismo brasileiro, a miscigenação, ao contrário do que aconteceu no prototipo brasileiro alencariano, levava à morte dos dois amantes, e não produzia herdeiros na forma de filhos mestiços, mal menor mesmo para os escritores brasileiros mais pessimistas. Seria só a partir dos anos 50, quando o império português se encontrava ameaçado por novas correntes históricas, que iria surgir uma espécie de mesticismo português, baseado no pensamento de Gilberto Freyre, em que aquilo que oficialmente não era aceitável (mas que sempre aconteceu informalmente - como aliás acontecia em todas as situações coloniais), seria elevado a filosofia para justificar a continuação da presença política de Portugal nos territórios ultramarinos.

Obras Citadas

Arnoso, Conde de, Jornadas pelo Mundo, Porto, Portugueza Editora, 1916.
Bruno, Emílio de San, O Caso da Rua Volong. Scenas da Vida Colonial, Lisboa, Tipografia do Comercio, 1928.
Inso, Jaime do, O Caminho do Oriente, Lisboa, Tipografia Élite, 1932.
Jesus, Montalto de, Portugal e Macau. Problemas Económicos e Políticos, Lisboa, Tipografia Universal, 1911.
Said, Edward W., Orientalism. Western Conceptions of the Orient, Harmondsworth, Penguin Books, 1995.