A leitura machadiana do olhar
Modos de ver as/das personagens

Beatriz Berrini
(PUC - SP)

Na nossa cultura, os olhos são vistos desde os gregos como o mais importante instrumento para o homem conhecer o que existe fora de si: permitem o contacto com o mundo exterior. Na avaliação de Platão, por exemplo, é "a vista o mais sutil dos órgãos do corpo"1. Ao mesmo tempo, quando se fecham a essa visão para fora e mergulham dentro da própria intimidade, podem fixar-se na contemplação do próprio mundo interior, ou procurar penetrar a consciência alheia com o olho físico; ou, ainda, perscrutar o que existe além do mundo visível, o metafísico, o sobrenatural. Como Gerd A. Borheim lembra, o olhar é tão importante para o conhecimento, que há uma profusão de modalidades do verbo ver em grego; e uma das particularidades mais notáveis é a vinculação que existe, na língua grega, entre o verbo ver e o ato do conhecimento. "O ver grego realiza a transmutação do ver físico para o ver metafísico".E por tal razão pode-se dizer que "há uma história do ver que acompanha os marcos mais decisivos do evolver da cultura ocidental"2. Na verdade, avaliando a evolução através dos tempos, percebe-se que "se o ver grego, se deixa conduzir fundamentalmente pelo que lhe é exterior, a partir da Idade Média a perspectiva se inverte, e o predomínio termina trasladado para a interioridade".

Literariamente, no caso de Machado de Assis, marcado pelos valores de nossa cultura, é natural a referência ao ver para fora, para o exterior; como também a fixação do olhar no interior, o ver para dentro. Por tal razão, é freqüente, na ficção machadiana, a menção aos olhos e por motivos vários: como traço caracterizador externo da personagem; índice revelador do seu mundo íntimo que neles pode ou não refletir-se; canal para o extravazamento da emoção graças à expressão alegre ou às lágrimas... Mostram-se ainda capazes de atrair, repelir, colocar-se fora de alcance etc. Em Machado, - sobretudo a partir da maturidade literária, - a referência ao olhar deixa de ser principalmente descritiva para se fazer metafórica, permitindo na sua ambigüidade e magia que a personagem se apresente como ser indevassável, misterioso, inexplicável. E simultaneamente comparece, explícito ou subjacente, o criador ensimesmado, com o seu olhar físico e mental: o escritor e a sua reflexão sobre o homem e a vida.

Nesta minha breve exposição, pretendo explorar um pouco os olhos das personagens machadianas, afastando-me portanto do olhar de Machado, no sentido da sua visão de mundo, ou seja, do foco narrativo, já tão bem analisado e poeticamete expresso por especialistas, como Alfredo Bosi. Mostra-nos o estudioso que o olhar do escritor não se limitou a espelhar a realidade, porém sondou-a, perscrutou-a, fez-se foco de luz. "[Machado] não decalca passivamente, mas escolhe, recorta e julga as figuras da cena social."3.

Não me vou preocupar com o olhar-espelho ou com o olhar-foco-de-luz do narrador/autor. Fascina-me a maneira pela qual, nos textos ficcionais machadianos, são mostradas as personagens, a partir dos olhos e do olhar. Começo por lembrar a complexa situação épica na ficção de Machado. O autor vale-se de sua função de criador para escolher o tipo de narrador que irá relatar a história; mas, como diz Bosi, a consciência autoral pode apagar-se, como pode também parecer apagar-se, fazendo-se visível através de expressões e frases aparentemente impessoais. Quando o olhar que vê e a voz que narra é a de um narrador explícito, em primeira pessoa, que se não confunde com o autor, impera o desdobramento entre autor e narrador. Outras vezes, a consciência autoral aflora, seja qual fôr a pessoa e, então, é já impossível, pelo menos muito difícil, distinguir por vezes quem é o responsável pelo foco narrativo: de quem é o olhar que vê e a voz que relata. Mas, o que atrai o olhar do narrador/autor? No caso de Machado de Assis, o que o fascina, o objeto sobre o qual de debruça, que analisa e avalia, é o ser humano: o homem e o seu comportamento. A criatura humana portanto é o alvo da sua investigação, em si mesma e no seu agir. No outro extremo, dentro da situação épica, em oposição à voz que narra, temos o leitor. O seu olhar pode debruçar-se sobre o espaço social, ou então, inquietar-se com as idéias e posições enunciadas no texto; ou ainda pode fixar-se sobre a personagem, para decifrá-la e entendê-la. Um leitor que, como o narrador/autor, tem olhos, imaginação, memória, juízo crítico, além de valores morais e culturais, modos de pensar próprios. Como leitora o que pretendo, justamente, é refletir sobre os olhos e os modos de ver das personagens machadianas.

Na verdade, para alcançar os objetivos da minha proposta, estabeleci um roteiro que me irá orientar no percurso pela intrincada e obscura floresta da ficção machadiana. Os passos dessa caminhada, reduzindo-os ao mínimo, serão, no meu caso: a caracterização física; o diálogo através dos olhares e, o que me parece o mais importante, a vida interior significada pelo olhar.Começo pela:

Caracterização física

Machado raramente refere-se à cor dos olhos, e a coloração está mais presente nos textos iniciais. Existem olhos azuis que podem, então, aliar-se a outras características e até recuperar o ideal feminino renacentista: olhos claros, pele alva, cabelos dourados. São exemplos a Cecília de A chinela turca4 e a cadelinha Miss Dollar, no conto de igual nome. Cecília tem "os mais pensativos olhos azuis, que este nosso clima, tão avaro deles, produzira." A partir do nome, o narrador, em Miss Dollar, fantasia possíveis portadoras dele - não faltando a figura vaporosa e romântica de uma jovem leitora de poetas, que se compraz em tomar chá com leite. Quem leva tal nome porém é uma cadelinha galga. A dona de Miss Dollar, essa, tem olhos verdes.

"Mas a grande distinção daquele rosto, aquilo que mais prendia os olhos, eram os olhos; imaginem duas esmeraldas nadando em leite".

Olhos que são vistos desfavoravelmente por Mendonça, apesar dele saber de cor os célebres versos de Gonçalves Dias.

Olhos garços, ou seja de cor esverdeada, verde azulada, são também os da heroína de Uma noite.

Em geral, mais freqüentes, - quando são mencionados, - são os olhos castanhos ou pretos: olhos negros e rasgados (como os de Mariana), olhos negros e travessos como os de Carlotinha, de O machete etc.

Sendo pouco freqüentes, as menções à cor muitas vezes aliam-se a outras expressões reveladoras da pessoa íntima, que os tem. Os de Mariana, negros e rasgados, têm um calor especial, presente também na sua pele, ou, nas palavras de Machado: "sentia-se-lhe o fogo através da tez morena do rosto, fogo inquieto e vivaz que lhe rompia dos olhos negros e rasgados".

A par da cor, como traço físico, por vezes são lembrados tamanho e formato:

"Não me enganei; é a mulher ardente e amorosa, qual me diziam os seus olhos, olhos de touro, como os de Juno, grandes e redondos."(Primas de Sapucaia!)

Embora atento ao físico, no caso à forma, o discurso sobre os olhos alude aqui não só à aparência, mas também ao temperamento ardente e amoroso da sua dona.

Mais adiante insiste o narrador na imagem mitológica, - touro, - acrescentando-lhe outra comparação metafórica: basilisco.

"Ela embebeu-lhe novamente os seus grandes olhos de touro e de basilisco (...), desta vez para só deixá-lo exausto e morto."

Touro seriam antes os olhos de Júpiter, que se disfarçou nesse animal para aproximar-se e seduzir Europa, despertando com isso os ciúmes assassinos de Juno. Ciúmes que nasceriam dos seus ardentes desejos, semelhantes aos de um touro. Será essa a razão da transferência dos olhos taurinos de Júpiter para Juno?

A descrição dos olhos da mulher desejada se enriquece, como se percebe, com outra comparação. Não se trata mais do tamanho, forma ou do brilho do desejo que dos olhos se irradia, mas do poder mortal desse olhar. Daí a aproximação com a serpente. Basilisco, já citado por exemplo pelo naturalista Plínio, era um monstro, conhecido como o rei das serpentes e, em algumas de suas formas lendárias, apresentava-se com olhos dotados de um poder assassino. Por isso, no texto machadiano, a presença da metáfora, que alude aos maléficos olhos de Adriana, ou melhor, ao seu poder de tiranizar e exaurir suas vítimas. Basilisco, parece-me, não é uma referência rara nos autores brasileiros da época. Encontramo-lo em Machado, em Raul Pompéia, em Raimundo Correia, quem sabe em outros mais.

A citação comprova a dificuldade de se conseguir exemplos que limitem as qualificações, comparações e metáforas, ao físico. Facilmente rompem tais fronteiras e avançam para o mundo interior da personagem, procurando traduzi-lo de alguma forma: mostram a atividade intelectual - raciocínio e intuição - e os sentimentos, - risos e lágrimas, sobretudo estas. Podem rir e sorrir, mas, em especial, as personagens machadianas, homens e mulheres, são incapazes de conter o pranto e, emocionalmente abaladas, derramam-se em choros incontidos5.

Igualmente a qualificação não se limita ao emprego rigoroso de termos objetivos, muito pelo contrário, inclina-se para a utilização de adjetivações insólitas, metafóricas muitas vezes: Olhos impertinentes (Confissões de uma viúva moça), olhos carnais (que se opõem ao olhar do espírito, em A chinela turca), olhos de gato e inquisidor (Um erradio), olhos que não acabam mais, não digo no tamanho, mas na expressão (A segunda vida)... O emprego da metáfora é tão imperativo que acaba por suplantar o simples adjetivo, valendo-se de expressões complexas: Em O alienista, por exemplo, o olhar de Simão Bacamarte traduz-se através da aproximação com o metal, único objeto capaz de expressar quer sua essência exterior como a íntima: "...o grande homem não ficou sequer consternado. O metal de seus olhos não deixou de ser o mesmo metal, duro, liso, eterno..." - cada adjetivo tem um peso próprio que merece reflexão, deixando que se veja o aspecto exterior da personagem e se perceba a sua impassibilidade interior. Em A causa secreta, Fortunato tem olhar semelhante: " Os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes."

Os olhos são mesmo capazes de executar ações e de manifestar sentimentos. Simão Bacamarte espeta em duas pobres senhoras "um par de olhos agudos como punhais" e no Conto de escola, o mestre enterra "pela consciência dentro [do aluno] um par de olhos pontudos".O avarento de Entre santos não quer pagar a promessa e imaginariamente apalpa com o olhar a moeda que devia ser usada na compra da perna de cera. Contempla-a girando, girando, girando. "E os olhos a apalpavam, de longe, e transmitiam-lhe a sensação fria do metal e até a do relevo do cunho." Custódio, protagonista de O empréstimo, apalpa também com os olhos o paletó do tabelião e, passa a invejar a alpaca e a casimira, quer ser a algibeira e o couro, a matéria mesma do receptáculo. O honesto tabelião, dono do paletó, tem "um olhar de lanceta, cortante e agudo".

Percebe-se, portanto, graças sobretudo às metáforas, as outras dimensões, melhor dizendo, funções textuais do olhar: são os olhos elementos capazes de comer, apalpar, cortar, ferir, cobiçar... Os olhos de D. Evarista, que contrastam com os do marido6, são "negros, grandes, lavados de uma luz úmida, como os da aurora...", mas capazes também de avidez. Quando Simão Bacamarte a leva às arcas onde guarda o dinheiro, D. Evarista deslumbra-se: "comia o ouro com seus olhos negros".

Da rápida visão da caracterização externa dos olhos, passou-se insensivelmente à expressão do temperamento ou dos problemas das personagens, dos seus desejos mais íntimos e de suas emoções. Antes de refletir mais profundamente a tal respeito - que é o que mais interessa - examinemos, rapidamente também, a linguagem do olhar.

Dialogando com os olhos

Os olhos na sua linguagem sem palavras favorecem a comunicação perfeita entre os seres humanos. Em vários textos acentua-se o silêncio das palavras e a eloqüência do olhar. Leandrinho, em D. Benedita, "dizia com os olhos, não com a boca, e dizia-o de um modo astucioso...". E, em Anedota do cabriolet, os olhos de João das Mercês "disseram, sem falar, que viriam ouvir o resto, - talvez naquela mesma noite". "O juiz municipal não lhe disse nada, nem com a boca nem com os olhos" (Três conseqüências) etc.

Presentes muitas vezes os elementos inerentes à escrita verbal aplicados às mudas palavras do olhar:

- ..."virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heróicos..."(O alienista)

- "Soares interrogava o olhar de Isabel, e lia nele a indiferença... (A parasita azul)

- "Candinha lançou o olhar interrogativo ao vestido da amiga... (A inglesinha Barcelos)

- Depois vinha uma reticência de lágrimas... (Eterno!)

- ...perdoe-me se ousei escrever-lhe quando seus olhos expressamente mo proibiram (Miss Dollar)

- "Deolindo chegou a ter um ímpeto; ela fê-lo parar só com a ação dos olhos." (Noite de almirante).

Numa sociedade que recomendava à mulher a contenção de comportamento, natural que à linguagem do olhar coubesse a expressão do que a jovem era obrigada a guardar dentro de si. Também o rapaz via-se preso dessas regras de comportamento e, para cativar a mulher que o atraía, desvencilhava-se das malhas da teia social, utilizando também a mesma gramática. Namora-se com os olhos. Duarte (A chinela turca) confia aos seus olhos castanhos "uma declaração em regra, que eles pontualmente transmitiram à moça". Ou, em situação oposta, Maria Olímpia acrescenta "com os olhos alguma coisa, que a humilhasse..." (A senhora do Galvão). Para marcar o início provável de um namoro emprega-se comumente a expressão "deitar olhos", da mesma forma que "fixar os olhos" em alguém traduz por vezes uma impertinência. Aliás as expressões utilizadas são com freqüência de uso corrente até hoje, o que as torna banais: cravar os olhos em alguém ou em alguma coisa; olhar de esguelha, levantar ou baixar os olhos, fechar ou cerrar os olhos etc. Mesmo empregando-as, Machado revela-se senhor de um singular poder expressivo, por vezes desbanalizando-as. Chega a narrar uma história somente através de menções ao olhar, como é o caso dos comentários que pontuam a expressão dos olhos garços de Camila (Uma noite):

- Já lhe disse que eram garços. Disse também que ria por eles.

- Creio que lhe vi os olhos úmidos, o riso que ria por eles deixou-se velar um pouco daquela chuvazinha passageira.

- A princípio não tirou os olhos dos meus, mas já então não ria por eles, tinha-os quietos e apagados.

- Fitando-me os olhos que já não sabiam rir.

Nesse mesmo conto, - Uma noite - , ao falar dos olhos de Camila, o narrador prolonga suas considerações, dizendo:- "Naquelas ocasiões não tinham o riso de costume, nem sei se conservavam a mesma cor. A cor pode ser, não a via, não sentia mais que o peso grande de uma alma escondida dentro deles." Na última frase, todo o Machado e seu modo de ver o olhar.

O que aparece logo na ficção machadiana, talvez inicialmente com uma certa ingenuidade, é a expressão da vida interior a extravasar pelo olhar, pois o que importa é "o que está escondido dentro" (Trina e una). Quando os olhos se fecham ou permancem semi-cerrados, vedam a invasão de olhares indiscretos, aventureiros desse mundo íntimo alheio. Em Um erradio faz-se uma distinção sutil entre dois tipos de olhar:

... olha para esse retrato, descontando-lhe os olhos, que não saíram bem; parecem olhos de gato e inquisidor, espetados na gente, como querendo furar a consciência. Não eram isso; olhavam mais para dentro que para fora, e quando olhavam para fora derramavam-se por toda a parte.

Citação preciosa. Olhos audaciosos que, imprudentes, parecem querer devassar o universo íntimo do Outro ("furar a consciência", nas palavras do texto); mas que podem estar mais voltados para o próprio eu: parecendo atentos ao mundo exterior, olham-no sem ver e se perdem na contemplação do longe, do nada, fixo o pensamento em coisa nenhuma. Ou, como diz a personagem Gonçalves, de Pílades e Orestes, quando se estendem ao longe é porque estão fitos "em ontem".

Há dois contos que revelam de forma extraordinária essas visões das personagens e o seu mundo íntimo:assiste-se a um leve erguer do véu que o oculta, e o narrador com sutileza e muitas reticências alude a silêncios, a olhos que passeiam, que fitam com insistência, ou baixam, confusos: Uns braços e Missa do galo.

Inácio, com seus olhos "de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber" (é o ver grego), mal ousa levantar os olhos do prato ou da xícara, e então, após a refeição, passeia-os pelos quadros da sala de jantar. Na verdade não os vê e passa por eles "como por nada". Pela educação recebida, ao princípio não ousa fitar os braços de D. Severina. Esta por seu lado mira o rapaz "por baixo dos olhos"; mas a figura do mocinho anda-lhe por "diante dos olhos como uma tentaçãodiabólica." Todo um clima de atração, de descoberta, de infiltração sinuosa, de ocultação, de denso silêncio, um silêncio carregado, envolve os dois, o jovem e a senhora. O narrador não precisa enunciar nada explicitamente, como se ele também cerrasse os olhos para ver melhor. São poucos na verdade os pensamentos registrados explicitamente e mínimas as palavras trocadas entre as personagens. O que vale é o que apenas é sugerido, o não-dito.

Em Missa do galo a situação repete-se: D. Conceição é a mulher traída, que passa algumas horas com o seu jovem hóspede à espera da missa do galo na corte, que Nogueira quer conhecer. Ele nunca chegará a entender aquela noite, onde, afinal, nada aconteceu. Enquanto o seu companheiro não vem, Nogueira conversa com D. Conceição. Ela enfiou "os olhos por entre as pálpebras semi-cerradas, sem os tirar de mim". Nunca desvia do rapazinho os seus "olhos espertos". Enquanto conversam, os olhos de Nogueira têm consciência da nudez parcial dos braços de D. Conceição: "a vista não era nova, posto não fosse comum", e ele então embaraça-se na sua fala, emenda assuntos, percebendo que "os olhos dela não eram bem negros, mas escuros", e outros detalhes. Em momentos de silêncio imagina que D. Conceição terá adormecido.

Mas os olhos cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente.

É então, num desses momentos, que o jovem tem a impressão que ela, apenas simpática, "ficou linda, ficou lindíssima". Finalmente o encanto se desfaz e ela passa a olhar à toa. Muito mais que a sedução das palavras, impera a mútua atração do olhar.

A vida interior

A leitura machadiana do olhar é orientada para determinado objetivo, ou seja, tem em vista devassar o mistério da pessoa humana, decifrar o seu enigma e entender o seu agir. Pela leitura dos contos chegamos ao limiar da floresta - digamos assim. O romance na sua largueza vai permitir a análise em profundidade, o avançar por picadas sinuosas a ver se se alcança a decifração do enigma humano. Ver a personagem no que ela é e no seu agir é uma tentativa de conhecê-la, de chegar a entendê-la e, por ela, compreender o próprio ser humano. Diz Bosi, e muito bem, que algumas personagens machadianas são quase pessoas7. Não sei se sou fiel ao seu pensamento quando empresto às suas palavras o sentido de que Machado se aproximou de tal forma desta ou daquela criatura, que o leitor passa a vê-la, e às demais, como seres vivos, quase pessoas, indecifráveis por vezes, incoerentes, dotadas de sagacidade e intuição, de frieza ou calor, de cálculo e paixão... Que mais?

Daí a razão de tentar a breve análise de alguns excertos romanescos, tendo por base os elementos levantados nos contos. Dentro dos limites desta apresentação, selecionei somente alguns parágrafos deste ou daquele romance de Machado,

começando por Iaiá Garcia que representa uma espécie de transição dentro da sua produção romanesca.
Iaiá olhou a princípio com curiosidade, depois com espanto, até que os olhos luziram de sagacidade e penetração. O estilete que eles escondiam desdobrou a ponta aguda e fina, e estendeu-a até ir ao fundo da consciência de Estela. Era um olhar intenso, aquilino, profundo, que palpava o coração da outra, ouvia o sangue correr-lhe nas veias e penetrava no cérebro salteado de pensamentos vagos, turvos, sem ligação. Iaiá adivinhou o passado de Estela, mas adivinhou demais... (cap. X).

O narrador apressa-se em explicar que tal visão era insólita para uma inexperiente jovem de 17 anos. Como diz: "... a criança acabara; principiava a mulher". Iaiá muito consciente da sua mudança interior, não suporta permanecer onde está e, apesar da "força de resistência que havia em sua organização", foge para a alcova.

Lá medita, pondera, avalia. Nas palavras do narrador, Iaiá trabalha mentalmente a sua descoberta. Confronta o que acabara de ver, - mais um ver, note-se, que um ouvir - a palidez de Estela, sua confusão, a mão trêmula que recebera a carta; junta a isso duas palavras soltas do pai, e soma tudo a fatos anteriores, pequeninas coisas de todos os dias. Gasta mais de uma hora nesse "cogitar solitário", a sós, "com a suspeita e o remorso". Reflete, como diz o texto, friamente e, não querendo ser percebida, afivela a máscara da serenidade. O texto é duro e revelador em relação à jovem. O olhar que examina a madrasta saem de olhos que até fazem lembrar os de Simão Bacamarte: são olhos que escondem estiletes, de ponta aguda e fina, que vão ao fundo do coração de Estela. Até então uma jovem ignorante do mal, inexperiente, cerceada pelas regras sociais, Iaiá tem o espírito rapidamente amadurecido e, como diz o texto: em dez minutos atinge a puberdade moral. Começa a traçar planos e, se não adota nenhum de imediato, é porque intui que no momento o melhor é esperar. O leitor assiste ao processo de transformação de uma jovem que é um exemplar tipico da adolescente da pequena burguesia carioca oitocentista, contida por múltiplas normas de comportamento, em uma moça calculista, capaz de conquistar os objetivos que tem em mente, empregando para tal uma série de táticas inteligentes. Consegue traçar o seu destino e, guardando as aparências, alcança uma autonomia que a liberta de muitos entraves sociais. Torna-se alguém.

Romance algum de Machado de Assis é tão centrado nos olhos como Dom Casmurro, desde a caracterização das persongens ao desenrolar da trama, até o doloroso epílogo.Se Capitu é senhora dos olhos de "cigana oblíqua e dissimulada", na avaliação de José Dias, é também possuidora de "olhos de ressaca", como a qualifica Bentinho, o contador da história - "metáfora sugestiva que transfere para as vagas do mar, do mar que voltará tragando Escobar, o fluxo e refluxo do olhar". Mar, diga-se, que chega a provocar ciúmes em Bentinho, pois Capitu quando nele se fixa, perde-se e se esquece (cf. cap. 107). Ao contemplá-la então, Bentinho sente-se perturbado "pelo que podia estar na cabeça de minha mulher", - diz ele. Eis a síntese do tema, que se encarna numa trama, com lances que se originam nos olhares dos protagonistas e nos seus modos de ver.

Capitu, aos catorze anos, tinha, entre outros traços físicos, os "olhos claros e grandes". Se Bentinho os descreve como de ressaca, é porque "traziam não sei que fluído misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca" (cap.32). Os olhos de Escobar, quando apresentados pela primeira vez ao leitor, são ditos também claros (cap.106); como igualmente claros serão os de Ezequiel. Os de Escobar são ainda qualificados de "um pouco fugitivos", e, noutro capítulo (91), de dulcíssimos (José Dias); prima Justina, em outro momento, dirá que são policiais, peculiares a um metediço. Essa forma de caracterizar através do olhar, com o emprego de vozes plurais, dá grande densidade e peso à opinião convergente das várias personagens. Os de Ezequiel, sendo igualmente claros, como os de sua mãe, em tudo assemelham-se aos de Escobar: desde pequeno são "já inquietos" (cap.109) e, à medida que ele vai crescendo, como diz o texto, nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira, tudo recorda o amigo: "Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo" (cap. 132). A própria Capitu comenta com o marido a "expressão esquisita" do filho (cap.131), que ela somente encontrara num amigo do pai e em Escobar.

Bentinho, já no Engenho Novo, ao recuperar o passado pela escrita das memórias, nada descobre no menino que o aproxime de si. Pois ele, Bentinho, nas feições lembrava o pai, como D. Glória diz (cap. 99), e, nas palavras de Escobar, parecia-se também com a mãe: "esses olhos que Deus lhe deu; são exatamente os dela." (cap.93). De um lado, os olhos claros e inquietos de Capitu, Escobar e Ezequiel; de outro, os de Bentinho refletindo a fisionomia paterna e materna.

O texto do romance valoriza a linguagem dos olhos, mais convincente e expressiva que as palavras. É pelos olhos que o narrador chega ao âmago das questões. As ações encadeiam-se motivadas pelos olhares. Primeiramente é a descoberta da sexualidade: "Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro". As mãos entrelaçam-se, apertam-se, fundem-se. "Os olhos fitavam e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros". Confissão de crianças, a mais espontânea, a melhor, silenciosa e verdadeira.

Será essa a linguagem também da mútua sedução de alguns momentos, de Bentinho e de Sancha. Os olhos da jovem mulher convidam Bentinho a outras expansões que não as fraternas. Se deles afasta-se, Bentinho logo depois parte em sua busca e os encontra pelo caminho. "Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros..." (cap. 118). Ao sair, os olhos de Bentinho tornam a mudamente falar aos de Sancha, enquanto os dedos encontram-se e unem-se. No dia seguinte, Escobar morto, Bentinho mentalmente traça um paralelo entre o olhar da véspera e o que a viúva lançara ao cadáver do marido. Aparentemente inconciliáveis, Bentinho acaba por convencer-se que a viúva era realmente amantíssima. Outro tanto não consegue concluir em relação a Capitu: Ela também olhara o cadáver de Escobar, tão fixa, "tão apaixonadamente fixa", que fora obrigada a contê-los. Momento houve em que os olhos de Capitu, fitaram o defunto "quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisessem tragar também o nadador da manhã" (cap. 123).

Se Bentinho desculpa Sancha, não perdoa Capitu. Esta, de boca, nunca confessará nada. É condenada somente pelos olhares ao defunto(cap. 123) e à fotografia (cap. 139).

Capitu, desde o início é curiosamente caracterizada pelo olhar que dissimula, mas que é também capaz de tragar. Expressões quase tão inconciliáveis, como as duas pontas da vida de Bentinho, aquele de Matacavalos e este de Engenho Novo. E o resultado é um livro impregnado de magia e encanto, que nos faz mergulhar no mistérioso despertar da consciência, e também nos faz aventurar pelas descobertas e revelações da adolescência; romance capaz de nos emocionar dolorosamente e de nos capturar inapelavelmente. Sua leitura obriga o olhar interior do leitor à reflexão, olhar que também se perde "em ontem", ansioso por apagar o hoje, seduzido pelo outrora e meditando com desesperança sobre o futuro.

Também presentes em Dom Casmurro os olhos da Morte. O Além começa a delinear-se com o encontro entre ela e Bentinho: seus olhos envolvem-no e o encaram "furados e escuros". Insensivelmente minha memória é invadida pela imagem romana da Bocca della verità (na igreja de Santa Maria in Cosmedin), associação sugestiva, pois na peça de mármore corroída pelo tempo, a Morte (ou a Vida?) é uma presença fatídica, indecifrável, dotada de mágicos poderes, com olhos e boca vazios, somente buracos escuros. Como se após a Morte fosse impossível qualquer intercâmbio: nem palavras nem olhares. Morte: ausência total de comunicação. Tudo cessa. Imagem da Morte que acaba por definir a Vida.

A ânsia de saber não conhece limites terrenos. Mesmo descrente de chegar à verdade, o homem prossegue na sua busca. O espírito tem por vezes estranhos poderes, dizem ainda os textos machadianos: além do ontem e do agora, é também capaz de ver, de des-vendar, o futuro.

No conto A cartomante, esta é assim descrita:

"Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos."

Na adjetivação quase uma antítese, um oxímoro. Quem diz sonsos, parece insinuar a falta de inteligência, a precariedade do diálogo, olhos de alguém perdido no próprio mundo. Por outro lado, agudos alude ao poder de penetração desse olhar, no caso o olhar da cartomante, com força para descobrir o íntimo do outro, até o que está por vir. Curioso o detalhe da nacionalidade - italiana - como se isso reforçasse a singularidade do olhar.

Em relação a esse poder de penetrar não somente a consciência alheia, mas de ver o que ainda está para acontecer, nós o temos no 1º capítulo de Esau e Jacó - "Coisas futuras!". Natividade, em companhia da irmã Perpétua, repete, como diz o texto, um velho costume da humanidade:ambas vão ao morro do Castelo consultar a Pítia nacional, a cabocla. Depois de a descrever, - uma "criaturinha breve e leve", - acrescenta o texto:

O mistério estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não fossem também lúcidos e agudos, e neste último estado eram igualmente compridos e tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o coração e tornavam cá fora, prontos para nova entrada e outro revolvimento"

Expressões arrepiantes, comunicadas através da linguagem metafórica. São tais olhos que se agitam, que se fixam nos retratos dos gêmeos, filhos de Natividade, que cheiram, escutam, interrogam. Os olhos da mãe permanecem fixos nos da cabocla, que "toda ela, cara e braços, ombros e pernas, toda era pouca para arrancar a palavra do Destino." Finalmente ela pára, senta-se, e somente depois ergue-se de um salto, radiante: "os olhos tão vivos e cálidos, que a mãe ficou pendente deles." A resposta da cabocla é sibilina: "Coisas futuras!". Coisas futuras: boas ou más? A expressão não o revela. À mãe a cabocla assegura que os filhos seriam felizes, seriam grandes. Isso bastou a Natividade. A expressão coisas futuras percorre todo o romance.

A cabocla machadiana aparenta-se a outras profetisas da Antiguidade greco-romana. Os oráculos dos deuses eram revelados nesses priscos anos por vozes femininas - as sibilas. Seres excepcionais, escolhidos pelas forças superiores para a transmissão de herméticas mensagens, propunham tais enigmas de que eram portadoras à decifração humana. Que pensar da presença desse poder divinatório em Machado de Assis? Recurso épico para adensar a dramaticidade da narrativa? Não será somente isso. De qualquer forma, percebe-se que o romancista não recusa a possibilidade da intervenção do fantástico, nem aqui nem noutras ficções. O mistério da vida e do homem não cabe em um par de olhos terrenos, numa visão friamente objetiva da matéria, e o nosso autor, cético e materialista, por vezes admite nos seus textos a intervenção do extra natural no cotidiano dos homens Como na atualidade o faz Saramago. Ele, que também se diz ateu e materialista, inventou uma Blimunda, com olhos capazes de penetrar a consciência da criatura em que seus olhos se fixam.

Os olhos de Flora, ainda em Esaú e Jacó, têm a meu ver estreita correspondência com os proféticos da cabocla, em sentido inverso, porém. Ou seja, se esta lia o futuro, os de Flora são incapazes até de decifrar o presente, perdendo-se em sonhos e perplexidades. Os seus, "eram olhos grandes e claros, menos sabedores mas dotados de um mover particular, que não era o do espalhado da mãe, nem o apagado do pai, mas mavioso e pensativo, tão cheio de graça etc." O conselheiro Aires, ao avaliá-la, qualifica-a estranhamente de "inexplicável". E, diante do questionamento de Flora que quer entender o adjetivo, Aires entra numa explicação que, com razão, a moça considera obscura. Flora, mulher indecifrável, perdido o olhar em Paulo e em Pedro, incapaz de ver qual dos dois corresponderia melhor ao seu desejo de afeto; não consegue vencer a cegueira de seus olhos insones, sempre abertos, porém incapazes de ver. Irá decifrar o mistério e resolver a sua charada já no além, sem forças para lutar e arriscar-se neste mundo.

Repare-se que, no caso dos romances machadianos, preferi personagens femininas (Iaiá Garcia, Capitu e Sancha, a cabocla e Flora), embora sejam de homens os olhos dos narradores e/ou comentadores, e os do autor. Talvez porque o enigma humano encarna-se de forma mais patente na personagem feminina. Na época de Machado, a mulher era ainda um ser prisioneiro de convenções sociais e do poder masculino, em busca da própria autonomia e realização. Na sua por vezes aparente fragilidade, a personagem feminina favorece a penetração do olhar crítico pois, quando inteligente e sensível, vive situações exarcebadas de conflito social e íntimo, mostrando-se capazes, ou não, de chegar à superação.

Dentro da escrita machadiana, tão povoada de referências clássicas, invoco para terminar a esfinge que se atravessou no caminho de Édipo: indecifrável; continua a desafiar o homem, incitando-o a descobrir o seu próprio mistério; acabará sempre por tragar os seus decifradores, incapazes de lograr a resolução do enigma.

Conclusões

Refletindo sobre os olhos das personagens machadianas, os seus modos de ser e de ver, é possível chegar a algumas conclusões:

1. Os olhos ocupam um expressivo espaço na ficção de Machado de Assis; porém o que neles importa não é o olhar em si, mas o que se oculta dentro dos olhos. Partindo de um elemento singular, chega o romancista a uma visão universal do homem e do mundo, transcendendo também o seu tempo e lugar.

2. Os textos machadianos mostram ainda o olho como insubstituível instrumento de comunicação entre os homens, mais completo e eficaz que a palavra. Em certos momentos, a linguagem dos olhos pode mesmo contradizer o significado das palavras e revelar o que elas silenciam.

3. A intenção da personagem, no geral, é ocultar o seu íntimo e, por tal razão, furta-se à devassa indiscreta do olhar alheio, cerrando, semi-cerrando, desviando os olhos para o horizonte, perdendo-os no nada... Ou utiliza tais processos para melhor penetrar a verdade íntima do Outro. Ambíguo poder: ocultação e desvendamento.

4. Quando o olhar da personagem alcança penetrar a intimidade interior do Outro, a reação é ambígua: por vezes, movida por uma certa delicadeza, dominada pelo medo de ser imprudente, cala-se e desmente com as palavras ou com o agir a mensagem dos olhos. Outras vezes, arrastada pela sede de saber, penetra "os refolhos da consciência alheia", sem preocupações ou escrúpulos.

5. Por tal razão explica-se a presença avassaladora da metáfora e também a supremacia do sugerir sobre o dizer, da tradução através de palavras obscuras e incompreensíveis em lugar do claro e direto discurso. Um mundo misterioso somente pode manifestar-se através de meias palavras, de um discurso enigmático ou, quando muito, buscando apoio em outras linguagens. Nesse nível, possível é verificar uma evolução: o emprego sempre mais urgente e significativo da metáfora é o resultado de um aprendizado e de um amadurecimento.

6. Paira sobre o texto em muitos momentos a presença indiscutível do autor: seja qual fôr a pessoa que enuncia, sua presença explicita-se através da coerência nos modos de ver, seus e das personagens, com muitas das quais ele comunga, utilizando-as afinal para expressar a sua maneira de ver o homem e o mundo em que vivemos.

Notas
1. Platão, "Fedro", Diálogos, vol. IV, tradução de Carlos Alberto Nunes, Universidade Federal do Pará, 1975, 250-d.
2. Gerd A. Borheim, "As metamorfoses do olhar", in Adauto Novais e outros, O olhar, S.Paulo, Companhia das Letras, 7ª reimpressão, 1999, p. 89.
3. Alfredo Bosi, O enigma do olhar, S.Paulo, Editora Ática, 1999, p. 48.
4.As citações foram extraídas dos 2 volumes de Contos: uma antologia: seleção, introdução e notas de John Gledson, S.Paulo, Companhia das Letras, 1998. Para os romances, utilizei o 1º volume da Obra Completa, Rio, Nova Aguilar, 1992.
5. Vejam-se alguns poucos exemplos: "Norberto chorava, arrepelava-se, construía planos absurdos ou terríveis..." (Eterno!); "...depois a tempestade subiu aos olhos e transbordou num verdadeito mar de lágrimas" (A parasita azul); "...as lágrimas tornaram, tão abundantes e impetuosas, que D. Paula achou de bom aviso deixá-las correr primeiro"(D.Paula); "...contou-me tudo com um riso de gratidão nos olhos" (Singular ocorrência) etc.
6. Freqüente em Machado o paralelismo opositivo, que contrasta dois olhares, neste caso o do marido e de sua mulher.
7. Alfredo Bosi, op. cit., p.43: "Há personagens que melhor se chamariam pessoas".
8. Alfredo Bosi resume assim a atuação de Brás Cubas e Bentinho: "Mas a sua voz não soa com o mesmo timbre do desfrutador cínico que contou um dia por desfastio as suas memórias póstumas e encenou a própria impudência. As lembranças de Bento conservam o tom de malogro e esvaziamento que não esconde a fragilidade existencial do memorialista" O enigma do olhar, cit., p.37.
9. Menos sabedores implica uma comparação. Menos sabedores que os da mãe ou do pai? Ou o outro elemento comparativo é o remoto olhar da cabocla, que o narrador sorrateiramente traz à baila.