A peregrinação iniciática de Barnabé das Índias

("Esse texto também aparece na Revista Veredas N° 3")

Maria Theresa Abelha Alves
Universidade Estadual de Feira de Santana

De ti se servem, ó morte, inimiga nossa, para alcançar a alegria, tu, que és a mãe do infortúnio; adversária da glória, ao serviço da glória é que te colocam; de ti se servem, porta do Inferno, para entrar no Reino, para atingir a salvação.

Estas palavras, citadas de um documento cisterciense do século XIII, abrem, na condição de epígrafe, o romance de Mário Cláudio, Peregrinação de Barnabé das Índias, que, publicado cinco séculos após a aventura da descoberta do caminho marítimo para as Índias, retoma a lusíada façanha, dando-lhe outra feição. O fragmento em epígrafe, assim recontextualizado, aponta, através da manifesta polaridade, a multiplicação de rotas orientadoras dessa outra viagem, menos aventurosa que salvífica, e que se dissemina em individuais périplos que objetivam ou as Índias que estão fora, ou as que estão dentro de cada um. Esse documento de caráter religioso, em que glória e alegria se não lêem em consonância com Reino e salvação, e em que morte não é fim, mas passagem, conduz uma viagem poética feita de elementos heterogêneos: interface de culturas, textos, e ideologias.

Ciente de que a História não se fecha num pretérito definitivamente acabado e de que ela é sempre incômoda, pois é fruto de leitura , de interpretações que se sucedem, se ratificam e se retificam, ciente de que uma visão homologada do passado é uma falácia, o romancista contemporâneo propõe uma reinvenção do tempo, através de uma reordenação e uma reavaliação dos fatos pregressos - históricos ou literários - cujas lacunas a nova ficção se incumbe de preencher. Entre mistérios e insondáveis desígnios, metaforizados pelo simbolismo ascensional dos arcanjos que apadrinhavam as caravelas, nomeadamente São Rafael, padroeiro da nau em que o grumete judeu embarcara, e das pombas em que, fantasticamente na consciência delirante de Barnabé, se transformavam os marinheiros mortos, pelo simbolismo cósmico da água e do fogo, nos seus respectivos desdobramentos físicos e alquímicos, e pelos, igualmente simbólicos, títulos dos capítulos , a viagem existencial dos embarcados nas naus da descoberta se inventa, enquanto, na viagem da escrita, se inventam os finais do século XV e os albores do XVI, mediante a captação de suas atmosferas, seja pelo som de suas orações, seja pelo sabor de seus cozinhados, seja pelo buquê de seus vinhos perfumados com especiarias, seja por seus trajes, seja pela diversidade de línguas que se falam, sobretudo, seja por seus antagonismos. Assim se recuperam enredos passados e se revê a história.

Muitas são, portanto, as viagens que o romance tece. Uma é aquela em que a superação das adversidades leva à glória, às benesses. O romance surpreende Vasco da Gama, na velhice, contabilizando os lucros que obtivera, porquanto é o sujeito dessa viagem em busca da fama cujo nome verdadeiro é vã cobiça, como já o sabia o Velho do Restelo. Viagem em que o horizonte é uma geografia por usurpar. Outra é a viagem que se faz pelos subterrâneos do ser, pela superação espiritual das misérias do corpo e da alma, viagem interior das sombras à luz, em que não se angariam honrarias, mas conhecimentos, iniciação por vias lustrais: a água do afogamento e o ígneo fulgor dos anjos. Quem experimenta tal peregrinação é Barnabé, o grumete que mergulha e naufraga nos vagalhões do sexo e do medo, necessárias mortes de que emergirá renovado. Há uma terceira viagem, aventura intertextual a que não faltam ecos. A hidra que constitui o pesadelo de Vasco da Gama, fonte de pavor incontrolável, pintada num afresco de seu palácio para poder exorcizá-la, o que jamais consegue, é a atualização do Gigante Adamastor. A populaça que se junta em Belém à partida das três naus reproduz a cena do Restelo, quando o épico soube tão bem dar a dimensão da dramática dualidade que ainda dilacera a nação portuguesa entre o fascínio perene pelas Índias e a sua perene execração. Os três físicos que acompanham o moribundo leito de D. João II, com suas absurdas e ineficazes mezinhas, reproduzem os protagonistas da Farsa dos Físicos. A representação da família sefardita, de um modo que a não diferencia totalmente da família portuguesa, é estratégia crítica herdada do Mestre Gil do Auto da Lusitânia. Os religiosos do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, tentados pelo "diabrete da concupiscência" (p.45), reportam-se aos clérigos que libidinosos ocupavam a cena vicentina. A viagem compreendida como peregrinação que abrange os campos do sacrifício e da religião é herança de Fernão Mendes Pinto. Os textos lecionados nas escolas conventuais, acomodações da historiografia de Alcobaça legitimadoras do perfil de assinalados que os portugueses se deram, e as profecias de Santo Isidoro de Sevilha, em que a ideologia expansionista foi buscar respaldo também são apresentados. Versículos veterotestamentários, comuns a cristãos e judeus, são reproduzidos, para provarem como as verdades são plurais: eles são ideologicamente interpretados por uns e outros. O Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama se focaliza ao se apresentarem as "conhecenças". A História Trágico-Marítima é recitada e hiperbolizada pelas lendas geradas pela ignorância ainda medieval dos que substituíam o ver pelo ouvir e acreditar. Conjugando assim múltiplos elementos, a que não se furta o Almanaque Perpétuo, de Abraão Zacuto e versos de Virgílio, o passado se recupera, a história se refaz, as viagens se contam.

A narração é objeto de um jogo em que se conformam e se deformam várias visões da travessia marítima em direção às Índias. Para tanto, o foco narrativo ora é assumido por um narrador extradiegético, capaz de abarcar vários tempos e espaços vários, ora por narradores intradiegéticos: Barnabé e Vasco da Gama que protagonizam ações mais rotineiras que aventurosas, numa intencional inversão da matéria épica. O tempo e o espaço também se multiplicam, porque singram os navegantes o Atlântico e o Índico, definitivamente mergulhados nas profundíssimas águas de Mnemósine. A memória da infância se desperta e, com ela, desenha-se um mapa de Portugal que configura uma declaração de posse de territórios ocupados por judeus ou cristãos-novos: Ucanha e Lamego, ao Norte; Sines e Évora, ao Sul, Lisboa ao Centro, enfim, o país. O futuro fica por conta do sonho ou da utopia da Terra da Promissão, consoante a imagem que dela se faz. Há o tempo da viagem enquanto tal, e o da viagem como lembrança, ambos acionam interiores e exteriores espaços. A onipresença judaica que se metonimiza em Barnabé, um criptojudeu, é o ponto de partida para que a história já conhecida se conte de outra maneira, avançando na contramão, surpreendendo e abalando as estratégias conformadoras de identidades, introduzindo disfunções nos mecanismos de produção dos imaginários, porque se conta não só como história de portugueses, mas também como história de judeus.

Depois da união dos reinos espanhóis sob a égide dos Reis Católicos, a comunidade sefardita começou a ser perseguida. Os judeus e os conversos expulsos de Castela em 1492, emigraram para Portugal onde havia mais tolerância, embora a migração maciça do povo mosaico despertasse nos portugueses a mesma sanha xenófoba que contra os espanhóis nutriam. Entretanto, as comunidades judaicas sempre estiveram ligadas como financistas à Coroa portuguesa, porque no quadro da economia pré-capitalista eram elas que detinham o comércio da moeda. A armada que estava sendo construída no Porto para ser chefiada por Vasco da Gama estava sendo patrocinada por elas. Entre os judeus de Espanha imigrados em Portugal salientava-se Abraão Zacuto, logo alçado à categoria de astrólogo de D. João II, posição em que foi confirmado por D. Manuel I. Era o autor de cálculos astrológicos com que se definiam as latitudes pelo regimento solar, suas tábuas foram adaptadas e unificadas por José Vizinho e postas à prova em viagem à Guiné. O romance de Mário Cláudio, sobrepondo a figura ficcional de Joseph de Lamego à histórica de Vizinho, focaliza tais cálculos, focaliza a amizade entre este e Zacuto, focaliza a adaptação das tábuas, e também, uma secreta viagem a mando do rei. À medida que os portugueses avançavam em suas viagens para o Sul, tornava-se-lhes impossível a orientação a partir da estrela Polar, como até então se fizera, de modo que a inovação de Zacuto foi fundamental para a nova aventura marinheira que se preparava Como tripulantes das naus, os judeus acompanharam a organização dos espaços ocupados pelos portugueses nos tempos das grandes navegações. Porém, os (des)ajustamentos políticos alteraram a feição das relações entre portugueses e judeus em tempos do Venturoso. As negociações de casamento de D. Manuel com a filha dos Reis Católicos suscitaram a ingerência da Espanha no assunto, o que levou o soberano português a promulgar, em dezembro de 1496, o édito de expulsão dos judeus e mouros que deveriam sair do reino, até fins de outubro do ano seguinte, sob pena de confisco dos bens. No entanto era nefasta a diáspora de um grupo cultural e economicamente tão importante, nem o próprio Rei que ordenara a expulsão realmente a desejava. Por isso a estratégia adotada foi a conversão compulsória dos judeus, iniciada precisamente em 1497. Certo era que se pregava a unidade religiosa, mas se pugnava, na verdade, por uma união ideológica ibérica. Esse quadro histórico é o pano-de-fundo do romance. Embora a presença efetiva dos judeus nas descobertas portuguesas, dentro ou fora das naus, tenha sido um dado concreto, tal fato foi silenciado, talvez por conta da espada de São Domingos que, ameaçadoramente, pairava sobre Portugal.

O romance contemporâneo recusa o silêncio, conferindo voz e visibilidade aos judeus e criptojudeus, surpreendendo-os em sua faina comercial ou científica, de que exemplar se torna a loja do sapateiro de Lamego, ou as tábuas de números que em sua casa se consultavam e que lhes foram cedidas pelo amigo, Abraão Zacuto, registrando a solidariedade e mútua ajuda existente entre os da nação: o adolescente de Ucanha vai para Lamego onde será hospedado e iniciado no ofício pelo primo abastado, analisando o interior de um lar judaico onde pontifica o Livro, sob a chama do candelabro de sete pontas, e a honra familiar se mede pela pureza de suas virgens, espreitando os judeus em suas rezas salmódicas, em hebraico ou em português, em suas medicinas, como o remédio fornecido por Joseph para curar a sífilis do primo, aludindo à conversão em massa e ao êxodo de judeus, em decorrência das novas ordens: Joseph e Zacuto emigram, Barnabé se converte. As alusões que se fazem criam a atmosfera do hibridismo cultural que em Portugal se respirava naqueles tempos e, simultaneamente, questionam a intolerância religiosa. Quando se desvela uma prática e um proselitismo que não correspondem a contradições de base, quando se patenteia que nos projetos maiores da nação, entre os quais a busca de empórios rendosos no além-mar, se conjugaram as duas vocações religiosas, e quando se surpreendem católicos e judeus nas malhas de um cotidiano comum, superam-se as oposições meramente conjunturais.

A trajetória de Vasco da Gama aponta-lhe a vocação marinheira desde menino, quando observara a alforreca e, ao lado de seu irmão mais velho, Paulo, vira uma caravela. No entanto, é ele mais da terra que do mar, é na praia, construindo castelos, que aprecia ficar. Do mar é seu irmão, que se distanciava da areia, abraçando o salso argênteo, na compulsão desenfreada de sua "febre do além". Disposto à glória, Vasco da Gama vai amealhando sucessos. A seu lado permanece "Catarina de sempre" , desde quando a vira donairosa ir à fonte, como a Lianor camoniana, e discreta participar do velório de D. João II, até as invernias do tempo e da vida, que tingem de neve campos e cabelos. Apesar de o primogênito ser Paulo, é ele que obtém a graça de el-rei para ser o capitão da armada. Suas viagens lhe fizeram entesourar muitos bens. Esse pleno sucesso é marcado por um discurso de certezas e máximas que transformam, pelo uso abusivo do verbo ser, em essências as aparências: "O velho no inverno é a morte soprada". Porém, à medida que se sucedem os fatos, se entremeiam as vozes e as visões, as certezas são desconstruídas e o capitão da armada vai perdendo o estatuto de herói, ao ser observado como cruel e autoritário, e ao apresenta-se como um velho alquebrado e friorento, amedrontado pelos fantasmas que lhe ficaram das tempestades do mar e da vida. Essa caracterização nada heróica é confirmada pelas lembranças de Vasco : vivera e viajara à sombra de Paulo da Gama, o irmão mais velho que lhe dera as certezas que lhe nortearam a travessia, portanto sua glória a outro era devida. Assim, à proporção que se esfuma o perfil heróico do descobridor do caminho das Índias, delineia-se a figura colossal, na alma e no sonho, de Paulo da Gama, seu iniciador nas marinheiras lides. Da tutela do irmão o Almirante jamais se desprenderia, tornando-se causa de seu crescente pânico a consciência dolorosa de que, na viagem, perdera a protetora sombra daquele que, mais que as estrelas, portulanos, astrolábios e bússolas, fora seu guia. Não é menor a desconstrução da figura régia. D. João II, o que fora cognominado de "O Príncipe Perfeito", é descrito como "amaldiçoado [...] íncubo que assumisse a materialidade", um "milhafre de bico contundente", qualificado por indignos feitos, como o assassinato do duque de Viseu. O narrador extradiegético compartilha da opinião negativa de Vasco, e, com ironia, depois de aludir ao episódio dos meninos judeus, arrancados à força do colo de suas mães para serem despejados na ilha de Cabo Verde por ordem do rei, acrescenta que o mesmo falecera, pelo que se dizia "em odor de incontestável santidade".

A trajetória de Barnabé é diferente. Não heróica, mas picaresca, passando por muitos amos, apropriando-se de muitas bolsas. É também trágica por efeito das perdas. Morte do amigo André Mendes, afogado na infância. Fantasma que por duas vezes lhe aparece, pressagiando viagens mais profundas e fornecendo um ensinamento de que mais tarde a nação portuguesa, mergulhada no saudosismo, muito viria a carecer: "não lances o olhar para o que foi, Barnabé, porque desse modo se morre em cada dia da vida". Morte de Revocata e da semente que nela deixara, numa fria noite do Norte, quando os hormônios da adolescência foram mais imperativos que as leis do Torá e o fizeram experimentar as rotas do êxtase. Perda dos pais e do primo, por conta da diáspora judaica. Perda de "Cona de Ferro", a Jezabel, que lhe incendiara e apodrecera as entranhas, fazendo-lhe rebentar bubões por todo o corpo, doença que a ficção transforma em homóloga às maleitas e podridão do próprio Reino. Perda do negrinho de Cabo Verde, por quem sentira despertar uma estranha e curiosa simpatia. Perda da indiana de guizos balouçantes nos morenos tornozelos com quem, por um momento, tanto eterno quanto fugaz, experimentara a descoberta da Terra da Promissão cujas fontes jorram leite e mel. Essa viagem inglória não é marcada por certezas mas por questões de natureza existencial: " de vós continuo a indagar a pessoa que sou". É viagem de auto-conhecimento, cujo destino é a travessia do "mar vermelho" que se esconde no âmago de cada um. Viagem iniciática cuja máxima iluminação advém da certeza de que "se não frui com encanto o que sem adversidade se conquistou" . Porque não afirmativa, mas dubitativa ou interrogativa, a viagem de Barnabé desfaz as crenças lusíadas que velavam hierarquias no contato com o outro. O criptojudeu, porque um "outro" entre seus pares, é aberto à alteridade; é ele que observa e aprende, é ele que compara o que os navegantes eram, enquanto ocidentais, e o que eram os orientais. A sua comparação, porque isenta, concede ao outro valores positivos, por exemplo, os negros em liberdade lhe parecem inteligentes, cordatos e sensíveis, levando-o a julgar que se assim não eram os escravizados em Lisboa, é porque não estavam no espaço onde livres se sentiam. Ao chegar a Moçambique, observando as esvoaçantes vestes brancas que trajavam e o barrete debruado de dourado que traziam na cabeça, é como anjos que os vê. Diferentemente dos demais, observa que na Índia conviviam em harmonia muitos credos e reconhece que isto era bom. Os infortúnios por que ele e os demais tripulantes passaram na desventurosa viagem se tornam homólogos dos infortúnios a que obrigados estavam os judeus. No mesmo ano da partida da armada das Índias, os judeus foram expulsos de Portugal. A sintonia entre os dois êxodos desqualifica a imagem de D. Manuel que ao grumete surge como "um símio desproporcionado" . São os olhos inquiridores e perplexos de Barnabé que substituem o acreditar pelo ver. É ele que se mistura, igual e diferente, ao labirinto do outro. Por isso, ao final, quando o grumete sem nenhum sinal se encontra com Vasco da Gama, barão assinalado, obtém a resposta que lhe devolve a identidade: " foste tu, e mais ninguém, quem essas Índias na verdade descobriu". (p.278).

Bibliografia

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