Imagens de cidades na poesia de Nuno Júdice


Ida Maria Santos Ferreira Alves
Universidade Federal Fluminense

É a partir do século XIX, pós-revolução industrial, com a ampliação do espaço urbano e o crescimento notável da população e seus problemas sociais, que o espaço da cidade, toda a sua complexidade, veio a se tornar, na arte, forte motivo de reflexão, superando de muito o clássico fugere urbem. Desse modo, escrever sobre tal espaço, sempre em mutação, lugar de tensões e contrastes, interessou diversos escritores de diferentes culturas, expondo-se ora uma visão apocalíptica, ora uma visão exaltadora do progresso e da modernidade, ora o convívio inevitável de diferenças. Para uns, as cidades eram grandes máquinas, produzindo a destruição de todos os valores caros ao homem digno; para outros, elas representavam a prova inequívoca de que o homem vencera etapas fundamentais na luta pelo desenvolvimento material a possibilitar uma vida mais cômoda e confortável, livre das agruras da vida rural. Para outros ainda, lugar de tensões insolúveis, de paradoxos, de diferenças, expandindo-se continuamente a partir de suas próprias contradições .

Neste final de século, claro está que esse tema continua a ecoar, já que o nosso tempo vivencia de forma dramática a explosão demográfica, a expansão incontrolável das megalópoles e o aumento assustador da violência social, evidenciando-se a solidão do indivíduo nas metrópoles e a sua desilusão profunda com os ideais de igualdade e fraternidade impossíveis, numa sociedade capitalista que só valoriza o material, a riqueza e o consumo, a fomentar, portanto, a perda de autonomia individual frente aos sistemas de produção e consumo. A arte moderna, que não pôde deixar de se confrontar com as cidades e, agora, pós-grandes guerras, vem realizando esse confronto com insistência, problematiza sem cessar a relação tensa entre homem e sociedade, entre arte e mundo, além de criticar a validade do progresso à custa de tanta destruição e repudiar as utopias projetadas pela mídia ou pela política no imaginário popular. Podemos dizer que o artista contemporâneo, descrente de qualquer paraíso, mais claramente deseja denunciar os paraísos artificialmente construídos, responsáveis pela alienação dos indivíduos e seu aprisionamento nas grandes cidades.

Com essa perspectiva, abordamos aqui a poesia de Nuno Júdice e nela destacamos paisagens urbanas e o modo como se posicionam nelas o sujeito lírico a constatar as negações da vida social, a ausência de sentido e a impossibilidade de determinar os fundamentos de sua existência, descentrada pelo "movimento do mundo" que se vem definindo, na crítica cultural a partir dos anos 70, sob o rótulo de "pós-modernismo".

Nuno Júdice publicou seu primeiro livro, "A Noção do Poema", em 1972 e desde aí vem regularmente publicando obras nas três áreas ficcionais: poesia, narrativa e teatro. Também tem contribuído para a crítica literária especialmente com dois livros, "O Processo Poético" e "Máscaras do Poema", que reúnem ensaios, artigos curtos e textos críticos diversos que já haviam sido publicados, na sua maior parte, em jornais e revistas portugueses. Esse trabalho já conta com o reconhecimento da crítica especializada e, sem dúvida, o autor constitui uma das mais importantes vozes no panorama literário português contemporâneo, especialmente poético.

Marca dominante de sua produção lírica é a reflexão insistente sobre a prática literária e as relações entre escrita e leitura no âmbito da cultura em língua portuguesa no seu diálogo com a cultura ocidental. Essa reflexão acaba se fazendo na interseção entre poesia e filosofia, quando o poético faz indagações sobre o ser, a temporalidade e a existência num mundo finissecular como o nosso. Muitas dessas indagações vêm perpassadas de ironia e da lição pessoana de fingimento, pois o sujeito lírico exercita o "pensar - sentir", observando tudo, pensando o sentimento e a subjetividade no texto literário, lugar de encenação e refiguração do mundo.

Obra complexa que nos pode levar a muitas abordagens em torno do poético, inclusive sobre seu lugar na contemporaneidade e em nossa sociedade pós-moderna, com sua ânsia de consumo e culto ao modismo, gosto do efêmero nos desejos e nas experiências de vida, fizemos, para efeito desta reflexão, um recorte para só destacar a atenção que o sujeito lírico dá ao olhar no desejo de visibilidade de certas paisagens que se cruzam na vida da(s) persona(s) poética(s): a cidade, a aldeia e o próprio poema.

Sabemos que o olhar, na escrita literária, é um dos sentidos mais atuantes, uma vez que é com imagens que se fazem os poemas e as narrativas. Também indicia uma representação mítica inegável, considerando que os olhos são "janela da alma"1, o portal entre o interior anímico e o exterior objetivo. Repensando a história da escrita, desde as mais antigas épocas, o olhar esteve presente, constituindo, por exemplo, o ideograma, impulsionando narrativas míticas, representações pictóricas e firmando-se como metáfora insistente no discurso filosófico preocupado com formas de conhecimento do ser. Assim, em nossa contemporaneidade, em que o visual ganhou ainda maior relevo, atrair o olhar, exercer o olhar, descobrir um novo ponto de vista são ações imprescindíveis para nos relacionarmos com o mundo real, marcado pela velocidade, pelos meio visuais como cinema e televisão e pela propaganda, fonte inesgotável de imagens provocadoras de desejos e fugazes aparências.

Sob esse aspecto, a cidade moderna é o lugar pleno da visualidade, seja por sua própria arquitetura, seja pela concretude de avisos e letreiros luminosos, placas diversas, outdoors espalhados, acompanhados pelo movimento rápido e constante de veículos e das pessoas em ruas entrecruzadas. O crescimento desorganizado de prédios, provocando, muitas vezes, que o horizonte à janela se restrinja ao melancólico paredão de outro prédio, ou às outras janelas também sitiadas, transformou a satisfação de olhar em mercadoria escassa a se vender como constatamos nos anúncios de moradia com vista para o mar, para o verde, para, enfim, o que se torna mais raro, a natureza. O homem contemporâneo realmente pode ser representado por insatisfeitos olhos imensos a tentar fixar as cenas velozes e multifacetadas das grandes cidades.

Nunca a questão do olhar esteve tão no centro do debate da cultura e das sociedades contemporâneas. Um mundo onde tudo é produzido para ser visto, onde tudo se mostra ao olhar, coloca necessariamente o ver como um problema. Aqui não existem mais véus nem mistérios. Vivemos no universos da sobreexposição e da obscenidade, saturado de clichês, onde a banalização e descartabilidade das coisas e imagens foi levada ao extremo. Como olhar quando tudo ficou indistinguível, quando tudo parece a mesma coisa?...

Mudanças na estrutura urbana, na arquitetura, nos meios de comunicação e transporte viriam alterar profundamente a própria constituição da realidade. Hoje o real é ele mesmo uma questão. As autopistas de alta velocidade - além da informatização - transformam por completo o perfil das grandes cidades e portanto a nossa experiência e nossa maneira de ver. O indivíduo contemporâneo é em primeiro lugar um passageiro metropolitano: em permanente movimento, cada vez para mais longe, cada vez mais rápido. Esta crescente velocidade determinaria não só o olhar mas sobretudo o modo pelo qual a própria cidade, e todas as outras coisas, se apresentam a nós2.

Na poesia de Júdice, o poeta é um voyeur a observar o mundo objetivo e a transformá-lo pela subjetividade, privilegiando um olhar crítico que sabe contrastar significativamente interior do ser e mundo exterior, o real e o imaginário, e pode delinear paisagens onde caminha o sujeito lírico e caminhamos nós, os leitores, pelo poema, em meio às palavras e às imagens, a reaprender o sentido do que se vê. O local limite em que se instala freqüentemente esse sujeito que olha é a janela. É a partir daí que se recortam paisagens e se estabelecem as relações constrastantes entre interioridade e exterioridade, entre indivíduo e comunidade. Também por questão de tempo de apresentação deste texto, reduzo a análise a alguns poemas retirados de apenas dois livros: "O Movimento do Mundo" (1996) e "A Fonte da Vida" (1997).

Nesses poemas, o tema da cidade se apresenta com certa insistência. Em alguns, à janela, o sujeito observa a rua e reflete sobre o urbano em cruzamento com a vida interior; em outros, o sujeito anda em cidades reais, como Lisboa, Porto, Veneza, Frankfurt, Rio de Janeiro, dirigindo seu olhar a algum dado referencial (o rio Tejo, o rio Douro, canais e degraus em Veneza, um edifício em construção em Frankfurt, a Confeitaria Colombo no Rio), para a partir dessa exterioridade referencial elaborar imagens que ultrapassam a realidade citadina e tornam-se meditações sobre o existir e ser. Com esse modo de olhar, Nuno Júdice aproxima-se de Ítalo Calvino no interesse pela imagem da cidade que lhe permite, como escreve este último, "exprimir a tensão entre racionalidade geométrica e emaranhado da existência humana"3.

Mas como se organizam essas paisagens nas obras de Nuno Júdice acima referidas? Podemos demarcar três espaços: a cidade, o campo (a província, a aldeia) e o poema. Igualmente, podemos articular três níveis de tratamento do urbano em suas obras. Num primeiro nível, a cidade é uma paisagem dominada pelo artificial, pela indiferença e solidão, em meio ao movimento nas ruas e às ações banais do cotidiano. As pessoas se cruzam, ou se encontram, mas o diálogo é reduzido ou inexiste, pois a comunicação é artifício de contato e conhecimento fugaz. Cada ser vive sua experiência de vida isoladamente. Leiam-se os poemas Convívio, Consulta Externa e Cidade (Episódio)4. Na realidade diária, revelam-se a perda do contato, o domínio do material sobre o espiritual, o isolamento social e os desencontros. O sujeito contempla a realidade urbana contemporânea, deparando-se com a extensão das impossibilidades.

O espaço citadino é negativo porque reifica o homem comum, impedindo seus direitos mais humanos como respirar, viver e ser. Notemos, porém, que o poeta não opõe à cidade a paisagem bucólica, a vida nas aldeias, pois aí também encontram-se os sinais de marasmo, de impossibilidades e vazios. As imagens da natureza continuam a refrescar os olhos, mas o campo é também lugar social e como tal apresenta as mesmas dificuldades da vida coletiva. Leia-se, por exemplo, Lembranças de Província:

Nesse tempo a vida era triste,
a chuva caía devagar, quando não era inverno ainda,
os cafés cheiravam a tabaco e havia, no chão,
beatas e papéis de bolos. Pela porta entreaberta,
às vezes, entrava um cão vadio, que corria as mesas,
e nenhum criado se preocupava a enxotá-lo.5
...

Num segundo nível, a cidade é também um lugar desafiante para o poeta contemporâneo que dela não pode se afastar. Assim, confrontando-se com sua realidade cotidiana, transforma o vazio urbano em elemento provocador de poemas em que se vão ler as cidades exatamente como colagens de imagens, fragmentos de sentidos, vivência em lacunas e de silêncios.

[...] Vou na direção oposta; e quando
chego ao último patamar, de onde se avista todo o bairro,
com a iluminação fria de varandas sem vidros, e de
janelas sem cortinados, já não sei em que lugar estou.
A neve dá voltas à cabeça, com os seus negros turbilhões
por entre prédios e montanhas; e nenhum deus habita
estas desertas escadarias, nem há quem o chame, quando
as portas se fecham para quem passa no corredor.6

Essa leitura, muitas vezes, é realizada num tom assaz irônico, meio de confronto e percepção de uma crise, de uma cisão existente e irrecuperável. Veja-se o processo no poema Divina Comédia:

De automóvel até ao paraíso,
buzinando à passagem dos anjos,
pedindo cigarros aos santos
que se encostam às nuvens, com o ar
de não fazer mal a uma mosca,
ouvimos rádio: música ordinária,
com letras banais, e pelo meio
anúncios de coca-cola e electrodomésticos,
como se ainda se precisasse disso
no paraíso! [...]

[...] Nada a fazer: para trás,
pela circular do purgatório, entre
bairros de lata e vendedores
ambulantes, a música acabou. Agora,
depois de boletins de trânsito e previsões
meteorológicas, a notícia
celeste: foi cortado
o caminho do paraíso!7

O sujeito olha as cidades, refletindo sobre a permanência do humano num espaço tão material, tão pré-determinado e sem essência. Assim a linguagem poética acolhe o exercício filosófico, permitindo que se avalie o mundo e se re-posicione o homem nele. Com a melancolia sempre presente pelas perdas e carências, só resta buscar um horizonte em devaneios. É a tensão da vivência humana contemporânea. Por isso, o poema não se submete à banalidade e à incomunicabilidade diárias e reage ao real com a liberdade do imaginário, como meio de estabelecer novos contatos entre o sujeito que olha e o mundo que é olhado, em busca do conhecimento mais intenso sobre a existência, pela recuperação de nossa humanidade emudecida ou aprisionada.

Entram pela janela os ruídos da rua:
uma outra vida, para quem quiser vê-la.
[...]
Mas quando se fecha a janela,
evitando esse contacto, e se sente ok alívio que, em certos instantes, a solidão
nos confere, poderá respirar-se o ar
sem limites do Espírito, e uma sensação
de liberdade emprestará, a esse estranho
isolamento, o gosto amargo do divino, que se
confunde com o egoísmo infinito do ser.8

Em decorrência, estabelece-se o terceiro nível de trabalho com as imagens de cidades. Como dizemos, frequentemente o sujeito está à janela olhando o mundo e essa janela só está no poema. Assim, como Italo Calvino em "As Cidades Invisíveis", Nuno Júdice nos oferece também cidades que existem apenas nos poemas. A essas cidades, sem nome, sem lugar objetivo ou referencial, somos levados pela escrita e leitura e aí se afirmam, sobre toda indiferença e sobre todo vazio do urbano real, espaços possíveis de encontros, permanência e memória. O poema assume sua luta cotidiana contínua o tempo corruptor, contra a vida artificial que se leva. Em reação à cidade concreta, ergue-se a cidade do poema. Se a primeira é lugar opressivo e excludente, a segunda libera e inclui o ser na vida e no mundo. Contra a velocidade urbana, o passageiro, o fragmentado e o incomunicável, facetas do movimento de reificação do humano, é que a poesia de Nuno Júdice se vai elaborando, propondo indiretamente uma experiência: olhar o detalhe, olhar-se no espelho do imaginário para resistir. Contra a corrosão e a destruição, é preciso reagir com alguma intenção de construção e é o poema, a arte, que pode realizar isso, edificando o olhar crítico sobre o estar e ser na modernidade das cidades. Leia-se um poema (Bem Ammar, de Silves (m.1086)) em que a cidade é imagem passageira frente a permanência do imaginário.

Canta, como sombra, uma cidade
que já não existe; e os seus versos dirigem-se
à mulher mais bela do mundo, de
quem não ficaram outras memórias
nem retratos. Mas as suas palavras
talvez cheguem
para que adivinhemos o paraíso:
palácios onde a água corria nos pátios,
e o quarto onde a amada descobria o rosto,
perante o espelho, resistindo à tarde
que a empurrava para a varanda,
e os risos cúmplices do namoro,
fingindo ignorar esse poeta que a persegue,
como gazela, tentando prendê-la
à página. Ali, branco no branco
e preto no preto, liberta da efemeridade
da vida, a vou encontrar: sem nome
nem idade, flor eterna
no jardim sem inverno dos amantes.9

As imagens de cidades na poesia de Nuno Júdice acabam por alegorizar a situação e a participação do poeta na sociedade contemporânea, um perseguidor de sentidos, frente ao fugaz, às perplexidades da vida urbana neste final de século e de milênio, realizando com certeza uma das propostas de Italo Calvino:

Se incluí a Visibilidade em minha lista de valores a preservar foi para advertir que estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, de fazer brotar cores e formas de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros sobre uma página branca, de pensar por imagens...10

Pensar por imagens é o que, afinal, o poeta faz, e é no entrecruzar de olhares que devemos acompanhá-lo pelas cidades a pensar o sujeito e o mundo.

Notas

1. Conf. CHAUÍ, Marilena, "Janela da alma, espelho do mundo", O Olhar (Org. Adauto Novaes), São Paulo, Companhia das Letras, 1988, p.31-63.
2. PEIXOTO, Nelson Brisac, "O olhar do estrangeiro", O olhar (Org. Adauto Novaes), São Paulo, Companhia das Letras, 1995, p. 361.
3. CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio, São Paulo, Companhia das Letras, 1994. p.85.
4. JÚDICE, Nuno, O Movimento do Mundo, Lisboa, Quetzal, 1996, p.77.
5. Idem, A Fonte da Vida, Lisboa, Quetzal, 1997, p.46.
6. Idem, ibidem, p.78.
7. Idem, ibidem, p.40-41.
8. Idem, ibidem, p.13.
9. Idem, O Movimento do Mundo, p.48
10. CALVINO, Italo Op.cit., p.107-108.